Crítica: O Chamado da Floresta

Depois da aquisição da Fox pela Disney, o estúdio do Mickey está gradualmente lidando com diversos filmes em diferentes fases de produção. Um deles é O Chamado da Floresta, baseado no clássico literário O Apelo da Selva publicado originalmente em 1903 pelo autor Jack London

Mudando a localização do norte do Canadá para o extremo Alaska, a história acompanha Buck, um cão acostumado com uma vida doméstica que é roubado na Califórnia e contrabandeado para Yukon, no Alasca, durante a corrida do ouro em 1896. Precisando se adaptar à vida selvagem, Buck deve aprender a lidar com o frio extremo e as adversidades promovidas por humanos descuidados.

O Chamado da Floresta é uma história sobre transformações emocionais de um protagonista que é retirado da vida que conhece e é obrigado a encontrar forças dentro de si ao redescobrir seus próprios instintos naturais para prosperar em um ambiente inóspito. Essa narrativa pode não ser exatamente original, mas e se dissesse que o protagonista dessa história é o cachorro?

Diferentes de outras histórias sobre amizades entre humanos e cachorros, o protagonista de O Chamado da Floresta é Buck, um enorme São Bernardo feito em CGI que acompanhamos por 1h40 sem o benefício de dois elementos extremamente importantes do cinema: a fala e a linguagem corporal reconhecível. Quando saiu o primeiro trailer, foi inevitável não sentir certeza estranheza ao ver um Harrison Ford interagir com um cachorro gerado por computador. 

Foto: 20th Century Studios
Essa percepção continua, já que os seus movimentos são quase cartunescos e longe da naturalidade de um cachorro real, especialmente nas cenas em que Buck interage com objetos e ambientes dentro da casa onde morava. Entretanto, essa sensação passa rapidamente à medida que a história sai da civilização e se estabelece na natureza. Se passando essencialmente em um ambiente realista, a produção soube mesclar personagem e natureza sem parecer que uma coisa era deslocada da outra.

Usar animais gerados por computador em um live action sempre é uma faca de dois gumes, já que inserir expressões mais humanas em rostos de cachorros gera uma estranheza automática e pode até ser um tanto perturbador. Todos os animais de O Chamado da Floresta são bastante expressivos, apesar de apenas Buck ter algumas reações mais humanas, o que me faz pensar que essa escolha pode ter sido proposital para enfatizar como ele é especial e diferente dos outros animais. Adicionando pequenos traços ao rosto de Buck, criaram um personagem extremamente expressivo que não precisa falar para passar seus sentimentos - graças aos Deuses do cinema pelas boas escolhas cinematográficas. 

Além da escolha de criar um cachorro em CGI fazer sentido narrativamente, seria ainda mais perturbador ver um animal real passando por todas as situações enfrentadas por Buck em sua jornada. Desde o momento do roubo, ele passa por situações muito angustiantes para um cachorro real vivenciar e, definitivamente, ninguém quer ver um animal sofrer. Sem um animal real no set de filmagens, Buck foi interpretado por um humano e modelado a partir de um cão de abrigo que o diretor Chris Sanders (Como Treinar o Seu Dragão [2010]) adotou após as filmagens. ❤️

Junto com as aventuras de Buck, o filme também coloca John Thorton (Ford) como o narrador da história, algo que não precisava existir. Essa narração é uma opção óbvia para momentos em que o roteirista Michael Green (Logan [2017], Blade Runner 2049 [2017]) acredita que o público precisava de mais orientação para entender determinados rumos da história. No entanto, a narração é bastante desnecessária na maioria das vezes e mostra que não houve 100% de confiança em ter um cachorro como protagonista. 

Foto: 20th Century Studios
O Chamado da Floresta não é de difícil compreensão e as mensagens passadas sobre superar adversidades para encontrar a verdadeira felicidade são bastante explícitas. Todos os personagens humanos têm falas muito claras para o público entender com facilidade quem eles são. Se um personagem é uma boa pessoa, o roteiro não deixa qualquer dúvida sobre isso.  Em meio à um roteiro sem espaço para especulação narrativa, a produção fez uma escolha muito interessante ao usar um lobo preto para personificar o espírito animal de Buck, um recurso muito mais interessante que um humano nos dizendo o que já estamos vendo.

Mas se a narração em si não agrada, o vínculo entre Buck e John é construído convincentemente de forma gradual. Em sua exaustiva jornada, Buck aprende lições muito humanas sobre trabalho em equipe, abandono e a busca por seu verdadeiro eu. Ao enfrentar humanos gananciosos e abusivos, ele desenvolve uma amizade genuína com John, um homem deprimido que vê em Buck a companhia ideal sem saber da necessidade dela até encontrá-lo. Enquanto o cachorro se encaminha para uma vida de liberdade, o homem tenta superar tragédias do passado para reaprender a amar. É muito bonita a forma como os animais podem ser importantes em situações traumáticas e ajudar no processo de superação de perdas -- até que alguém dá um tiro neles, né, John Wick?

Apesar de alguns problemas, O Chamado da Floresta é divertido e vai emocionar quem ama filmes com cachorros, quem conhece o material original ou está disposto a curtir uma aventura com os toques certeiros de humor e emoção. Curiosamente, esse é o material da finada Fox com mais elementos de clássicos da Disney, e por si só isso já é um imenso elogio.