Crítica: Uma Vida Oculta

fevereiro 26, 2020

Para plateias acostumadas com histórias frenéticas, cortes bruscos e enredo enxuto, Terrence Malick parece uma anomalia em Hollywood. Longe de ser um cineasta para todos os públicos, ele é um dos poucos diretores que não participa de tapete vermelho, cerimônias de premiação ou até mesmo entrevistas. Seu trabalho consiste em fazer um filme, soltá-lo no mundo e deixar o espectador pensar profundamente sobre o que viu.

Esse é o caso de Uma Vida Oculta [2019], escrito e dirigido pelo cineasta. Baseado em fatos reais, acompanhamos a história de Franz Jägerstätter (August Diehl), camponês austríaco muito devoto que mora com a família em um pequeno vilarejo chamado St. Radegund, na Áustria, em 1939. Levando uma vida muito simples e muito feliz, tudo muda quando ele é recrutado para lutar com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Se recusando a jurar lealdade a Adolf Hitler, ele e sua família são perseguidos pelo regime e pelos poucos vizinhos, que o veem como um traidor.

Com o avanço de discursos cada vez mais extremistas, o cinema voltou seus olhos para o passado para nos relembrar os perigos que ainda corremos e a necessidade de nos mantermos fortes. Usando a figura real de Franz Jägerstätter, Malick fala sobre todas as pessoas desconhecidas que lutaram contra o regime nazista.
Foto: Searchlight Pictures
Os primeiros minutos são reservados para nos mostrar como Franz conheceu Fani (Valerie Pachner), se apaixonou e se casou, formando juntos uma família respeitada na pequena comunidade. Essa longa sequência não cronológica tem uma narração sussurrada que rapidamente estabelece a idílica vida dessa família. A sequência termina com o distante som de um avião que anuncia o início da mudança. 

Com a dominação nazista na Áustria, Franz é obrigado a passar por um treinamento militar básico, mas é enviado para casa quando a França se rende e a guerra parece perto de terminar. Como sabemos bem, a guerra não acabou com a rendição francesa e o camponês foi convocado para ingressar no exército nazista, algo que ele publicamente se nega a fazer ao se recusar a prestar o juramento de lealdade ao líder nazista e ao Terceiro Reich. Acusado de traição, Franz é preso e enviado para julgamento. 

A partir daí, a história é marcada pela leitura de cartas que Fani e Franz escreveram um pelo outro - a diferença entre a vida de Franz antes e depois do regime é nítida na cinematografia impecável de Jörg Widmer, que muda significativamente de uma paleta de cores iluminadas e um trabalho de câmera fluído para cores mais escuras e quase sem vida como as paredes de sua prisão.

Uma Vida Oculta é uma história muito bonita e profundamente filosófica sobre até onde somos capazes de ir pelas nossas convicções e valores pessoais. Mesmo que as escolhas de Franz o afetem diretamente, sua família também enfrenta as consequências sociais da decisão. Seguindo um caminho diferente de outros filmes sobre as duas grandes guerras, Malick aborda algo muito mais profundo ao mostrar como os conflitos afetam pessoas que não estão necessariamente nas zonas de batalha. 
Foto: Searchlight Pictures
Na primeira hora de filme, Um Vida Oculta mostra a introdução da ideologia nazista nessa pequena comunidade de uma forma muito discreta, como uma ameaça silenciosa. Quando menos esperamos, o prefeito da cidade está fazendo discursos nacionalistas em plena praça pública sobre como outras raças estão arruinando o país com seus novos costumes e deuses. Espelhando muito do comportamento do próprio líder nazista, ele é como o paciente zero para os discursos extremistas se espalharem com força entre os poucos moradores. 

Aos poucos, Fani e seu família se tornam alvo do fanatismo que afetou profundamente esse pequeno vilarejo, trazendo mudanças nas dinâmicas sociais. É inevitável não refletir sobre como um lugar tão isolado e pouco afetado pelo resto do mundo pôde abraçar com tanta força um discurso tão extremista. Até por isso, Uma Vida Oculta não fala apenas sobre a Segunda Guerra Mundial, mas fala muito sobre hoje. 

Malick fez um filme extremamente doloroso sobre o poder por trás da defesa das nossas definições morais, independente das pressões externas. É assombroso ver alguém fazer uma escolha tão poderosa como ir contra regime apenas pelo ato de fazer a coisa certa. Uma Vida Oculta não usa seu protagonista como uma figura heroica com pretensões de mudar o mundo, mas apresenta um homem que compromete a própria vida para simplesmente fazer o que acredita ser certo - "Você não pode mudar o mundo... O mundo é mais forte".

Com uma duração que requer doses de devoção, Uma Vida Oculta nos lembra como a vida pode ser bela e simples, ao mesmo tempo que nos faz pensar como a humanidade é capaz de complicar sua própria existência, seja como indivíduo ou como sociedade. Inevitavelmente, o drama nos faz pensar sobre o que faríamos se estivéssemos na mesma situação. Juraríamos fidelidade à algo que repudiamos para nos pouparmos da morte e do sofrimento inevitável dos nossos familiares? É difícil ter uma resposta fácil para uma questão que nos faria analisar profundamente quem verdadeiramente somos. Mas, como o próprio Franz afirma, palavras são poderosas e o próprio fascismo se alimenta de cada uma delas e, principalmente, da nossa capacidade de dizê-las por medo.

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