Como a indústria cinematográfica está lidando com o Coronavírus?

Se você não mora em uma caverna, provavelmente já sabe que o mundo está sofrendo um surto de um tipo de Coronavírus chamado de COVID-19, uma gripe muito forte que se espalha assustadoramente rápido - sugiro fortemente que você ouça Dráuzio Varella falando sobre a doença no podcast Café da Manhã. Exatamente por se espalhar muito rápido, os países com maior número de casos estão cancelando eventos com grande aglomeração de pessoas, como as salas de cinema. 

Com o avanço da doença, Hollywood está se esforçando para reorganizar agendas de lançamentos e campanhas promocionais nos países mais afetados. Recentemente, a campanha de marketing de 007: Sem Tempo Para Morrer foi cancelada pela Universal Pictures na China, Coréia do Sul e Japão, enquanto a Paramount cancelou as filmagens de Missão: Impossível 7 na Itália.

A maioria das estreias na China nas próximas semanas ainda não receberam qualquer informação oficial das autoridades chinesas sobre a permissão para exibição no país, mas dificilmente qualquer um deles estreará no país em um futuro próximo, já que as salas continuam fechadas. Depois de uma arrecadação recorde de US$ 9,2 bilhões em 2019 - um aumento de 5,4% em relação ao ano anterior -, a arrecadação chinesa em janeiro e fevereiro totalizou apenas US$ 238 milhões, um número assustadoramente inferior aos US$ 2,148 bilhões no mesmo período em 2019 e aos quase US$ 2,4 bilhões em 2018. Isso significa uma queda estratosférica nos primeiros dois meses deste ano e dificilmente veremos mudança nesse quadro em um futuro próximo.

Em 26 de fevereiro, uma directiva conjunta do Centro de Prevenção e Controle de Doenças de Pequim e do Bureau Municipal de Cinema de Pequim estipulou diretrizes rígidas para os operadores de cinema e equipes de filmagens. No caso dos operadores, os cinemas devem buscar aprovação das autoridades para reabrir, além de adotar medidas rigorosas, como toda sala ser desinfetada após cada exibição. Entretanto, parece que a própria indústria chinesa não está preparada para essa retomada. 

"A julgar pela situação atual, a indústria cinematográfica ainda não está preparada para retomar os negócios, e ainda não aprovamos as demandas da indústria para retomar os negócios", afirmou Chen Bei, vice-secretário geral do governo municipal de Pequim.

Reconhecidamente, o mercado chinês é um imenso trunfo para as bilheterias globais dos estúdios, mas o governo chinês mantém uma cota de cerca de 35 filmes não chineses por ano no calendário de lançamentos. Com ênfase em grandes blockbusters com foco em todos os públicos, filmes como Dr. Dolittle e Sonic - O Filme sofreram bastante com fechamento dos cinemas no país. O maior impacto desses cancelamentos e adiamentos viria para os futuros filmes hollywoodianos do calibre de Mulan, o novo 007 e Velozes e Furiosos 9, programados para estrear entre no final de março e meados de maio. Sem dúvida, os estúdios podem segurar a data de lançamento, mas não é difícil imaginar os cinemas chineses dando prioridade às produções locais.
Foto: Imagem de Free-Photos por Pixabay
Além da China, a Itália também fechou quase metade dos cinemas do país em uma tentativa de conter a expansão da doença. Eventos públicos foram cancelados em Piemonte, Lombardia, Veneto, Friuli Venezia-Giulia e Emilia-Romagna, com efeitos sendo rapidamente sentidos nas bilheterias italianas. Como a maior concentração de vendas do país está na região do Lácio e ao norte do país, os números caíram 75% em comparação com o mesmo período no ano anterior.

Várias estreias nacionais e internacionais foram canceladas e não tem data de lançamento prevista nos cinemas italianos, como o caso de O Homem Invisível. Há indicações de que outros filmes internacionais, como Mulan e Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, também sofrerão atrasos de lançamento, resultando em uma perda financeira na casa dos bilhões de dólares. Dario Franceschini, o ministro de cultura italiano, realizou uma reunião de emergência com representantes da indústria do país e declarou um "estado de crise", pedindo que o governo trabalhe em colaboração com autoridades de saúde para monitorar de perto a situação e identificar rapidamente áreas onde salas podem ser reabertas.

Esses cancelamentos e adiamentos de filmes afetam, e muito, a indústria cinematográfica. Apesar de nenhum estúdio falar abertamente sobre planos para lidar com a expansão desse novo tipo de Coronavírus, executivos estão tentando determinar como lidar com o atraso de grandes lançamentos em determinados países. Se o vírus não for contido, o calendário global sofrerá um baque significativo, especialmente em relação aos filmes que estão agendados para estrear no final de 2020 e começo de 2021. 

Já citado nesse texto, Mulan é um caso bastante especial. O live action da Disney com elenco asiático custou U$ 200 milhões e pode não ser exibido por semanas - ou até meses - no território chinês. A Variety apontou que os outros estúdios estão esperando qual movimento a Disney fará no mercado asiático, especialmente na China. Se os cinemas permanecerem fechados, inevitavelmente o calendário inteiro será adiado. 

Mas mesmo com os cinemas funcionamento normalmente em determinados países, dificilmente o público estará disposto a se arriscar em lugares com aglomeração de pessoas. Em carta aberta, os autores do site MI6-HQ -- o maior blog de fãs de James Bond -- pediram que o próximo longa do agente britânico seja adiado até o verão norte-americano. A carta afirma que "a saúde e o bem-estar dos fãs e de suas famílias em todo o mundo são mais importantes" que o lançamento do filme, previsto para começo de abril.

Além das preocupações com bilheteria, a indústria está focada em manter outras atividades também. Até o momento, os proprietários de cinemas chineses cancelaram suas participações na CinemaCon 2020, mas estúdios como Paramount, Universal, Disney e Warner Bros. são esperados. Realizado em Las Vegas de 30 de março a 2 de abril, o evento atrai participantes do mundo todo e, até o momento, não houve qualquer rumor sobre um possível cancelamento. 

O mesmo vale para o Festival de Cannes, que afirma estar monitorando a situação e "tomará naturalmente todas as medidas necessárias, visando garantir a proteção de todos os participantes e preservar sua saúde durante o evento". Marcado para acontecer de 12 a 23 de maio, o festival confirma que está preparando o evento normalmente.

Independente do futuro da indústria, o mais importante é que as pessoas permaneçam seguras. Ao longo da história, o cinema sobreviveu a diferentes eventos históricos significativos e isso não mudará. Portanto, se o filme que você está esperando demorar um pouco para chegar no cinema, sem problemas. O importante é você estar bem no futuro para ser capaz de vê-lo.

*Os números deste texto estão atualizados até 02 de março de 2020.