Vamos conversar sobre ...E o Vento Levou?

É indiscutível que a arte é um reflexo do tempo e da sociedade em que o artista viveu, e isso não é diferente no cinema. À medida em que conversas sobre misoginia, racismo, intolerância religiosa e xenofobia ganham um espaço cada vez mais necessário nas discussões sobre representações artísticas, muitas obras passaram - e continuam passando - por um importante processo de reavaliação.

Em meio às manifestações antirracistas nos EUA após a morte de George Floyd por um policial branco chamado Derek Chauvin, John Ridley, produtor executivo e roteirista vencedor do Oscar por 12 anos de Escravidão [2013], pediu que a HBO Max removesse ...E o Vento Levou do catálogo. "Não é apenas 'aquém' em relação à representação. É um filme que glorifica o Sul [antes da Guerra de Secessão]. É um filme que, quando não ignora os horrores da escravidão, faz uma pausa apenas para perpetuar alguns dos estereótipos mais dolorosos de pessoas não brancas."
Foto: WarnerMedia
Lançado em 1939, o romance histórico dirigido por Victor Fleming é adaptação do livro de mesmo nome escrito por Margareth Mitchell lançado em 1936. Situado no sul dos EUA, a história segue Scarlett O'Hara, filha de um proprietário de uma plantação na Georgia, com uma trama ambientada entre a Guerra Civil Americana e a Era da Reconstrução, período de 1863 a 1877. A Era da Reconstrução representa um capítulo importante na história dos direitos civis norte-americanos por ter acabado com os remanescentes da secessão confederada ao abolir a escravidão - sugiro fortemente A 13ª Emenda, documentário de Ava DuVernay sobre como a escravidão norte-americana tem sido perpetuada através do encarceramento em massa da população afro-americana.

Três diferentes visões da Guerra Civil foram perpetuadas nessa época: a visão dos supremacistas brancos, incluindo aí a segregação e a preservação dos "padrões culturais" tradicionais do sul; a visão de reconciliação, enraizada em lidar com as consequências da guerra, como a morte e a destruição; e a visão emancipacionista, que buscava cidadania, liberdade e igualdade constitucional para os afro-americanos. A questão levantada ao longos dos anos sobre o filme é que apenas uma dessas visões - a primeira - é abordada, gerando críticas vindas da época do lançamento até hoje.

O longa protagonizado por Vivien Leigh foi um imenso sucesso popular no lançamento e se tornou o filme mais lucrativo dos EUA por mais de um quarto de século. Com valores reajustados pela inflação, permanece sendo a maior bilheteria da história dos EUA, especialmente por ter sido relançado periodicamente ao longo do século XX. Sendo um sucesso de público, não foi difícil o filme encontrar um lugar cativo na cultura popular. Sem sombra de dúvidas, ...E o Vento Levou é um clássico do cinema e uma conquista técnica, mas é extremamente importante contextualizar sua história e o período de lançamento do vencedor de dez Oscars, oito competitivos e dois honorários. 

O caso mais emblemático envolvendo o filme é com a atriz Hattie McDaniel, a primeira afro-americana a ganhar um Oscar. O hotel onde a cerimônia aconteceu tinha uma política de segregação racial, mas permitiu a presença de McDaniel como um favor. Ela e sua equipe, entre eles o seu agente branco William Meiklejohn, foram obrigados a sentar em uma mesa segregada no fundo do salão. 
Foto: WarnerMedia
Após a cerimônia, os colegas de elenco brancos foram para um clube onde negros não eram permitidos e a atriz foi impedida de entrar. Mais tarde, o produtor David Selznick retirou todos os rostos de atores negros dos pôsteres do filme no sul dos EUA e nenhum deles foi autorizado a participar da estréia. Demorou 50 anos para outra atriz negra ganhar o Oscar - Whoopi Goldberg levou a estatueta por Ghost em 1991 em Melhor Atriz Coadjuvante.

A nova discussão começou quando Ripley pediu que o filme fosse retirado do catálogo da HBO Max, o que aconteceu silenciosamente. Um porta-voz do serviço de streaming soltou um comunicado sobre a decisão, afirmando que o filme retornará com uma "discussão de seu contexto histórico", mas permanecerá intacto, porque alterá-lo seria como dizer que alguns dos preconceitos da história não existem. 

"...E o Vento Levou é um produto de seu tempo e retrata alguns dos preconceitos étnicos e raciais que, infelizmente, têm sido comuns na sociedade americana. Essas representações racistas estavam erradas na época e estão erradas hoje, e sentimos que manter esse título sem uma explicação e uma denúncia dessas representações seria irresponsável. Essas representações certamente são contrárias aos valores da WarnerMedia, portanto, quando retornarmos o filme à HBO Max, ele retornará com uma discussão sobre seu contexto histórico e uma denúncia dessas mesmas representações, mas será apresentado como foi originalmente criado, porque caso contrário, seria o mesmo que alegar que esses preconceitos nunca existiram. Se queremos criar um futuro mais justo, equitativo e inclusivo, precisamos primeiro reconhecer e entender nossa história."

Como a própria HBO Max disse, ...E o Vento Levou é fruto do seu tempo e retrata como parte sociedade norte-americana se comportava no período. Isso não quer dizer que o filme não seja problemático pelas suas representações racistas ao minimizar - para não dizer eliminar - drasticamente os horrores da escravidão. 

Originalmente, o livro continha uma cena em que Scarlett era atacada por homens negros e salva pela Ku Klux Klan, que tem forte presença no livro, mas foi retirada durante a adaptação para se tornar apenas um grupo político sem nome. Apesar da cena ser modificada e parte da linguagem ofensiva ter sido retirada, a mensagem permaneceu essencialmente a mesma em relação à escravidão, em que sulistas brancos são retratados como os verdadeiros defensores dos valores tradicionais. Por todo o sul dos EUA, homens negros eram linchados com base em falsas acusações de assédio. 

Outro ponto extremamente problemático é a visão misógina presente na relação entre Scarlett e Rhett Butler (Clark Gable). Uma das cenas retrata um estupro conjugal, em que Rhett carrega Scarlett pelas escadas para o quarto, apesar dela lutar e dizer não. Na cena seguinte, Scarlett aparece satisfeita sexualmente, enquanto Rhett pede desculpas por seu comportamento, justificando que havia bebido. A sequência foi acusada de perpetuar a noção sobre as mulheres gostarem secretamente de sexo forçado, além de reforçar que esse é um jeito aceitável de um marido tratar sua esposa. E, não, não é aceitável.
Foto: WarnerMedia
Entretanto, engavetar o filme e fingir que nunca existiu não é a melhor solução para apontar o quanto esses comportamentos são inconcebíveis. Diferente de estátuas públicas que colocam figuras históricas problemáticas em poses heróicas e relacionam as histórias daquele determinada região ao ato daqueles “heróis”, obras de arte têm espaço para apresentar ao público o contexto sociocultural por trás de sua criação. 

Acima de tudo, a arte também existe para educar e conscientizar pessoas - oi, Spike Lee -, portanto é extremamente importante existir um debate sobre esse … E o Vento Levou, especialmente por estar longe de ser um retrato histórico preciso. Melhor do que ignorá-lo é tratá-lo como deve ser tratado para todos compreenderem que não repetir os erros do passado é a melhor forma para garantir um futuro.