Estúdios e donos de cinema precisam encontrar um meio-termo

Durante anos, grande parte da indústria cinematográfica evitou a todo custo dar abertura para a possibilidade de mudar a forma de distribuição de filmes. Com uma pandemia em curso, os últimos meses forçaram Hollywood a encarar essa questão, fazendo com que estúdios, cineastas e redes de cinema reavaliassem o próprio futuro.

Em uma reviravolta não prevista, a NBCUniversal e a AMC Theatres resolveram suas pendências e assinaram “um contrato de vários anos”, permitindo a estreia de filmes do estúdio para locação em serviços ‘On Demand’ apenas 17 dias após a estreia. Tradicionalmente, esse período durava três meses, tempo em que os proprietários de salas de cinema sempre afirmaram ser importantíssimo para impedir a espera para ver no conforto do seu lar. 

A NBCUniversal e a AMC entendem a importância de períodos de exclusividade nos cinemas, mas chegaram em um consenso sobre a vida útil dessas produções entre o público. Ambos acreditam que a maioria das receitas de bilheteria acontece durante os três primeiros fins de semana de lançamento, com queda após o primeiro mês. Poucos continuam em alta depois desse período e vários deles perderam espaço à medida da entrada de novos materiais. O novo acordo permitirá a retirada das produções da NBCUniversal das salas administradas pela AMC quando o foco do público mudar, abrindo espaço para uma nova onda de interesse pelo filme nas plataformas digitais. É bastante improvável não imaginar que os outros estúdios busquem acordos parecidos.

Como esperado, o novo acordo criou um movimento divisivo entre os próprios exibidores. Poucos dias após o anúncio, Mark Zoradi, CEO do Cinemark, falou em uma teleconferência não ser favorável a um acordo do tipo. Segundo Zoradi, esse novo modelo de negócios não apenas prejudicará a "experiência teatral", como também pode gerar prejuízos significativos.

Diferente da conclusão da NBCUniversal e a AMC sobre o tempo de vida de um filme nos cinemas, o CEO argumentou que a maior parte da porcentagem da bilheteria nesse período vai para os estúdios, enquanto as redes realmente faturam após esse primeiro mês. Isso significa que a rede só recupera o investimento e consegue lucro depois de quatro semanas.

Se outras redes não acreditam na vantagem de algo parecido, o caminho escolhido pela Disney para Mulan antes do lançamento nos cinemas pode representar um futuro ainda mais nebuloso. Visto por muitos como uma das esperanças de retorno do público, o live action será disponibilizado na Disney+ e custará uma taxa adicional de US$ 29,99 nos países onde o serviço de streaming do Mickey já estreou. 

Foto: Disney

Diferente da NBCUniversal, que falou abertamente sobre a necessidade de modificar a maneira de fazer negócios, a Disney sempre se posicionou ao lado dos exibidores e a favor da tradicional janela teatral. Esse anúncio bombástico mostra que o estúdio está pronto para explorar novas possibilidades de arrecadação.

Existe uma diferença bastante importante de arrecadação entre lançar um filme para aluguel e enviá-lo diretamente para o próprio serviço de streaming. Todo o dinheiro adquirido com as vendas de Mulan entrarão diretamente nos cofres do estúdio e, claro, será devidamente dividido com seus co-parceiros dependendo do contrato assinado entre as partes. Apesar de Bob Chapek, CEO da Disney, afirmar ser uma experiência, é bastante óbvio que o estúdio aproveita o momento para fazer uma espécie de test drive antes de realmente se aventurar em algo visto como o futuro. 

Se Mulan tiver um bom retorno financeiro, dificilmente a Disney vai ignorar uma nova forma lucrativa de arrecadar com suas produções. Fazendo uma conta rápida - e bastante ridícula, diga-se -, se 10 milhões de assinantes pagarem para ver, a Disney conseguirá US$ 300 milhões em receita. Receita que, lembre-se, cai no bolso no estúdio.

Rapidamente, os donos de cinema dentro e fora dos EUA demonstraram insatisfação com a decisão. Um vídeo particularmente curioso de um homem destruindo uma arte promocional de Mulan circulou no Twitter pouco tempo depois. Tom Grater, jornalista do Deadline, conseguiu encontrar esse homem e descobriu que ele é dono de um cinema independente no sul de Paris. 

Em entrevista, Gerard Lemoine contou que estava promovendo Mulan há meses e tinha esperança que o live action colaborasse com o retorno do público. Ainda segundo ele, seu cinema não vai durar muito tempo se as coisas continuarem assim, além de colocar suas expectativas no lançamento de Tenet - com estreia marcada em alguns países e determinados cinemas dos EUA, mesmo com grandes mercados como Los Angeles e Nova York ainda fechados. Além dos problemas com donos de salas, o movimento enfrentará algo bastante conhecido nos últimos anos: a pirataria. A pergunta não é mais se o filme será pirateado, mas em qual velocidade vai aparecer disponível para qualquer um ter em casa.

A decisão da Disney acendeu um sinal de alerta entre os donos de cinema, preocupados com a abertura de precedente. Em conversa com o Deadline, um dono de uma pequena cadeia de cinemas nos EUA, que não quis se identificar, questionou se eles perderam os filmes da Disney para sempre. Um novo e inquietante período de adaptação está apenas começando.

Enquanto isso, a Disney conseguiu a aprovação do governo chinês para Mulan estrear no país "em breve" -- especialistas acreditam ser em 4 de setembro, mesmo dia da estreia de Tenet por lá. Ainda nos primeiros dias da pandemia, muitos se questionou sobre a possibilidade do live action não estrear no país tão cedo. No fim, o filme poderá estrear nos EUA e na China no mesmo dia, só que em plataformas diferentes. 

É muito prematuro e até um tanto irresponsável já decretar o fim definitivo dos cinemas, mas será muito difícil manter o modelo tradicional de distribuição no futuro, especialmente agora que os estúdios finalmente encontraram uma mina de ouro. Esse modelo operava no limite há anos e o malabarismo financeiro feito é uma prova disso. Na última década, a indústria estacionou nas grandes franquias, um gerador enorme de dinheiro além do ingresso - produtos licenciados variados entram nessa extensa lista, como aquele balde de pipoca personalizado caríssimo.

Essas franquias não devem existir? Não, mas não faz sentido um filme estacionar seis meses em uma sala de cinema. Alguém pode argumentar que o faturamento ajuda a mantê-lo esse tempo todo em cartaz, mas nem sempre é assim. Nem toda produção é Vingadores: Ultimato para continuar fazendo rios de dinheiro semanas depois da estreia.

Com uma janela menor, o público pode entender que tem um tempo limitado para assistir algo, assim colaborando para aumentar o interesse para vê-lo em tela grande. Parte da mudança deveria ser nesse senso de "exclusividade". Além disso, uma janela menor também pode oferecer uma diversidade maior e gerar interesse do público em ver outras coisas. No caso de um filme ser realmente amado pelo público, o espectador sabe que ele estará disponível no serviço de streaming do estúdio ou poderá ser alugado e comprado nas plataformas digitais. Dessa forma, o estúdio mantém o material vivo por mais tempo, ajudando nas vendas do filme e de todos os produtos ligados à produção.

Com novas formas de entregar entretenimento para o público, os cinemas precisam se tornar atraentes novamente, especialmente por ser um entretenimento tão caro. Ninguém quer a morte do cinemas, apenas um renascimento necessário para uma arte tão importante.