Crítica: 1982

1982 está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

Em 1982, a ditadura militar argentina enviou tropas para as Ilhas Malvinas para reivindicar o território considerado britânico desde 1833. Segundo os argentinos, o arquipélago também conhecido como Ilhas Falkland havia sido "ocupado ilegalmente por uma potência invasora". O conflito gerou uma imensa mobilização midiática para enaltecer o patriotismo argentino e unir a nação.

Dirigido pelo argentino Lucas Gallo, 1982 reúne trechos importantes do programa de televisão 60 Minutos para resumir a campanha midiática ocorrida ao longo dos 74 dias de guerra. Montado para seguirmos os eventos cronologicamente, o documentário aborda o poder da mídia em promover a guerra e dar importância social para o conflito. Além de matérias especiais diretamente do front, os esforços incluíam programas de televisão especiais que enalteciam a dedicação do povo argentino e a importância da causa.

Foto: 60 Minutos

Entre inúmeros trechos do programa, um especial de 24 horas ininterruptas chama atenção ao mostrar os apresentadores pedindo doações para um fundo patriótico criado para compras de armas e outros artigos de necessidade para os soldados. Para inspirá-los à doar, essa espécie de Teleton patriótico recebia visitas ilustres da sociedade argentina que faziam discursos apaixonados sobre o amor ao país, além de cantoras famosas que cantavam o hino argentino. Sendo uma ditadura, os líderes do governo eram tratados como heróis pelo programa à medida que apareciam "espontaneamente" no estúdio para enfatizar para o público que a Argentina precisava deles.

Além do imenso senso de dever com o país, o documentário separa momentos para salientar a relação dos argentinos com a religião, ilustradas nas imagens da visita de João Paulo II ao país e nos padres enviados para as ilhas com o objetivo de dar apoio aos soldados. Por tudo isso, 1982 tem o claro objetivo de te colocar no lugar dos argentinos inflamados pelo amor ao país e pela necessidade de reparação histórica. Esse estilo de edição tela-em-tela popular nos programas televisivos da época nos permite fazer uma viagem no tempo para a sala de estar de uma família argentina em 1982.

Por ter esse objetivo, o documentário dá apenas pequenos indícios do lado britânico ou até mesmo da recepção do povo da ilha, que não parece ser um fator importante para os argentinos. Curiosamente, esse é o mesmo argumento que a Argentina usava em discursos apaixonadas sobre os europeus invasores. Com uma visão tão unilateral, 1982 é um ótimo documentário para gerar debates sobre o poder da mídia em canalizar opiniões. Sem qualquer análise sobre as consequências da guerra além dos fatos históricos, o documentário se enquadra mais como um documento histórico sobre o Argentina no período do que necessariamente um estudo profundo sobre a guerra. Se você busca esse estudo, pode se decepcionar.