Crítica: Boa Noite

Boa Noite está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens.

Há 70 anos, a televisão é uma das companheiras constante da população brasileira e algumas figuras são emblemáticas para gerações. Como o caso da lenda viva Cid Moreira, que apresentou o Jornal Nacional por 27 anos, repetindo a famosa saudação "boa noite" mais de oito mil vezes. O encerramento eternizado por ele no telejornal dá nome ao documentário escrito e dirigido por Clarice Saliby.

Boa Noite começa seguindo uma estrutura cronológica com o próprio Cid Moreira compartilhando histórias sobre os primeiros passos como radialista, profissão que o apresentador começou a exercer sem querer. Em busca de emprego, ele era amigo do filho do dono de uma rádio e costumava usar o microfone para brincar de locução. Quando foi se candidatar à uma vaga administrativa, o entrevistador o contratou como narrador. Esse foi o início de uma longa carreira na comunicação.

Intercalando conversas do apresentador sobre suas lembranças com narrações feitas por ele, o documentário expõe um poder de interpretação que vai além da leitura do roteiro. A carreira de Cid Moreira não é marcada apenas pela voz reconhecível, mas pelas narrações que contavam histórias. Muito além de simplesmente passar a informação para o público, ele era um contador de histórias que dava o tom certo para cada notícia.

É fascinante ver momentos marcantes do apresentador no telejornal - generosamente cedidos pela Globo - e, especialmente, perceber a enorme diferença entre a forma como as notícias eram dadas naquela época e são dadas hoje. O próprio Cid Moreira reconhece que esse tipo de narração foi se perdendo no tempo e dando espaço para outros estilos e entonações.

Foto: TvZERO


Entretanto, é impossível não sentir que esse homem é a imagem do telejornal mais antigo do país que ainda permanece no ar. Ele foi responsável por noticiar eventos marcantes que mudaram o rumo do Brasil e do mundo - o documentário dá o merecido destaque às mudanças de moeda que passamos ao longo dos anos.

Além de celebrar sua carreira, Boa Noite tem o claro objetivo de desconstruir a imagem mítica de Cid Moreira e realmente cumpre esse papel ao mostrar o claro desconforto do apresentador em ser tão famoso. Reconhecidamente tímido, ele gostava do anonimato do rádio e parte da sua preparação para entrar ao vivo na TV em rede nacional era fingir que ninguém estava vendo.

Esse desconforto fica claro quando o próprio Cid Moreira diz que acha chato quando pedem para ele tirar uma foto ou mandar um áudio para algum desconhecido dizendo "boa noite". É intrigante - e desconfortável - como temos o costume de acreditar que desenvolvemos alguma intimidade com uma figura conhecida simplesmente por ela ser famosa.

O documentário abre espaço para Cid Moreira falar sobre seus medos e suas perdas, mas prefere focar na resiliência do apresentador em se manter ativo com quase 93 anos - perto do final, ele conta com certa naturalidade o dia que ficou preso na sauna de casa e quase desmaiou.

Infelizmente, é uma pena que Boa Noite seja tão curto perto da longa e frutífera carreira do apresentador. As famosas narrações das apresentações do Mister M. são apenas uma vírgula dos segundos finais do documentário, por exemplo. Algumas coisas também parecem um pouco contraditórias, especialmente quando abordam o papel da mídia na ditadura militar. Enquanto ele se coloca como um simples leitor de teleprompter, o apresentador também mostra sagacidade ao falar que leu um direito de resposta à um editorial da Globo com a entonação de um peixe morto.

Apesar disso, Boa Noite é um bom documentário sobre um homem que viveu sua vida para o jornalismo. Mas fica a dica: se encontrar o Cid Moreira por aí, não peça para ele dar boa noite.