Crítica: Cidade dos Sonhos

Cidade dos Sonhos está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

Ao longo da história, diversas cidades ao redor do mundo passaram por gentrificação, um processo de modificações urbanas que causam o encarecimento de regiões e a exclusão da população mais pobre. Em Cidade dos Sonhos, novo documentário dirigido por cineasta chinês Weijun Chen, fica claro que a gentrificação acontece em qualquer sistema econômico.

Wang Tiancheng é um vendedor ambulante de 70 anos de idade que cuida de um quiosque de rua no movimento distrito de Wuhan há mais de uma década. Sua vida muda quando a administração da cidade decide que esse distrito comercial será transformado em uma área de joalherias, começando o processo de expulsão dos comerciantes que vendem produtos baratos. Enquanto outros vendedores aceitam ser enviados para outro lugar, "Tio" Wang se indigna com possibilidade de perder a ótima localização para vender frutas e roupas, se tornando o maior problema para o Departamento de Gestão Urbana de Wuhan.

Wang não está exatamente disposto à qualquer conversa pacífica sobre a situação, criando uma série problemas para os fiscais e policiais. Entre gritos indignados, Wang corre pelas ruas sem camisa, distribui tapas em policiais, rasga todos os papéis que lhe dão e se joga na avenida movimentada discursando sobre como prefere morrer do que perder o quiosque. Essas cenas parecem chocantes no início, mas logo fica claro que elas fazem parte de uma estratégia de um homem idoso para ganhar tempo e tentar manter o negócio da família.

Foto: Weijun Chen

É intrigante como a câmera de Chen não toma partido por qualquer lado nessa questão, apenas registrando as discussões e decisões de ambos os lados. No entanto, é desconfortável ver um batalhão da polícia rendendo um homem idoso que deseja manter o único sustento da família. Wang e sua família são muito pobres e colocam todas as esperanças na neta, uma boa aluna de uma escola secundária em Wuhan. Grande parte da renda vai para a educação da jovem, que está entre as melhores alunas de matemática da turma. É bastante perceptível o amor do pai pela jovem e o desejo que ela tenha uma vida melhor que a sua.

Originalmente de uma região rural, a família precisou mudar para a cidade por causa da pobreza e a barraca é a única fonte de renda, já que o filho de Wang perdeu a mão em um acidente quando trabalhava em uma fábrica e não consegue encontrar emprego. Retornar para o interior não é uma opção. Cidade dos Sonhos lança um holofote na população que não faz parte da elite enriquecida chinesa e dá à Wang e sua família um arco narrativo redentor, mas é inevitável não pensar como toda essa situação seria resolvida - e se seria resolvida - sem as câmeras ligadas.