Crítica: Colectiv

Colectiv está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

Em outubro de 2015, um incêndio em uma boate chamada Colectiv na Romênia matou 27 pessoas e feriu outras dezenas. Inexplicavelmente, o número de mortos continuou aumentando nas semanas seguintes nos hospitais de Bucareste. Mesmo com os hospitais lotados de pacientes, as administrações se recusaram a assinar as transferências para enviar as vítimas de queimaduras para outras cidades. Indignada com a situação, a população foi para as ruas e causou a queda do governo, gerando um efeito dominó de investigações sobre o modo com a saúde é administrada no país.

Dirigido pelo romeno Alexander Nanau, Colectiv [2019] segue um pequeno grupo de jornalistas liderados pelo editor-chefe Catalin Tolontan da Gazeta Sporturilor, um jornal esportivo diário romeno reconhecido como a maior e mais lida publicação relacionada à esportes do país. Tolontan e sua equipe estão trabalhando para descobrir a verdade sobre o que aconteceu com as vítimas, após relatos perturbadores sobre pacientes terem morrido em decorrência de infecções bacterianas em hospitais despreparados e perigosamente não esterilizados.

Foto: Alexander Nanau Production

 Sem depoimentos, o documentário usa uma estrutura simples, mas não menos dramática, de filmar as conversas em salas fechadas, as revelações chocantes e a repercussão social de cada descoberta. Tolontan e sua equipe investigam cada pista usando métodos bastante tradicionais que vão de análise de dados à vigilância e conversas com denunciantes, como a corajosa doutora Camelia Roiu. É bastante revelador como questionamentos simples não foram feitos pelo governo e até pela maior parte da mídia no início do escândalo. Como todos os hospitais apresentaram os mesmos problemas?

Com essa pergunta em mente, os jornalistas descobrem que a empresa responsável pelo fornecimento de desinfetante hospital, a Hexi Pharma, estava diluindo todos os produtos, criando ambientes favoráveis para a proliferação de bactérias. Dan Condrea, dono da empresa, é interrogado pela polícia, mas acaba morrendo em um acidente de carro - no que a polícia entendeu como um suicídio, conclusão que a esposa de Condrea não acredita ser verdade.

Com o tumulto político e social em torno da investigação, o governo provisório nomeou um novo Ministro da Saúde com o objetivo de apaziguar a situação e dar respostas à população. Dando acesso à equipe de filmagens, Vlad Voiculescu descobre rapidamente um imenso esquema de corrupção no sistema de saúde do país, que enriqueceu empresários e políticos, causando a morte de cidadãos inocentes. Entretanto, mesmo com o desejo de reformular o sistema, Voiculescu percebe que não é fácil ser um agente de mudança quando tudo ao seu redor está contaminado.

Foto: Alexander Nanau Production

Editado pelo próprio Nanau com a dupla Dana Bunescu e George Cragg, Colectiv é envolvente, ainda que desconfortável de assistir. Esse desconforto não está apenas na narrativa, mas nas cenas gráficas necessárias para contextualizar a gravidade das denúncias. É desesperador constatar que o descaso do Estado foi fundamental para a inexplicável morte de tantas pessoas, algo que o documentário é bastante sensível em abordar. A dor de cada família e das vítimas que sobreviveram, como Mariana Oprea, nunca passará.

Assim como a maioria dos documentários sobre investigações jornalísticas envolvendo corrupção governamental, Colectiv causa um sentimento de impotência pela forma como estamos nas mãos de pessoas incapazes de entenderem que suas ações geram tragédias irreparáveis. Esse é um documentário extremamente doloroso, mas muito necessário sobre como a corrupção sistemática pode causar estragos duradouros.