Crítica: Forman vs Forman

Forman vs Forman está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

Com uma vida que por si só já daria um filme, o cineasta checo Milos Forman foi um dos símbolos da intitulada New Wave da antiga Checoslováquia, uma geração de cineastas que usaram o cinema como meio de resistência à opressão. Morto em 2018, o realizador de incríveis filmes como Um Estranho no Ninho [1975] e Amadeus [1984] compartilha sua própria história de vida no documentário Forman vs Forman [2019].

Dirigido por Helena Třeštíková e Jakub Hejn, o documentário de 77 minutos conta com um impressionante trabalho de edição que tece todos os momentos mais importantes da vida pessoal e da carreira do diretor, que, inegavelmente, se mistura com a própria história da agora Tchéquia. Desde o início de sua vida, Forman experimentou tragédias pessoais irreparáveis como a morte dos pais, enviados para campos de concentração pelo regime nazista. A solidão gerada por perdas dolorosas tão prematuras moldaram sua visão de mundo e refletiram em um cinema humano e empático.

Foto: Negativ Film

O grande trunfo de Forman Vs Forman é permitir que o próprio cineasta compartilhe sua história a partir de inúmeras entrevistas e filmagens pessoais produzidas ao longo de sua existência, que nos dão uma visão cativante da montanha russa emocional que foi sua vida. Forman viveu em um dos cenários mais sombrios da história da humanidade e se tornou um aclamado diretor nos EUA, depois de ser exilado de seu país por causa de seus filmes subversivos.

O documentário mostra como o personagem título esteve sempre em busca de liberdade criativa, especialmente depois no exílio - O Povo Contra Larry Flynt [1996] é a exemplo perfeita dessa busca. Ao longo de diferentes momentos de sua vida, Forman compartilha histórias por trás de seus filmes mais famosos, além de detalhes sobre como fazia suas produções no seu país de origem. Em um momento específico, o cineasta conta que filmava histórias completamente diferentes dos roteiros aprovados pela censura no auge do comunismo.

Anos depois, o diretor retornou ao país para as filmagens de Amadeus como uma oportunidade rever a família e seu país após anos de isolamento. As recordações da vigilância constante presente no início da carreira foram experimentadas novamente, mas ainda mais intensas após longos anos nos EUA.

Foto: Negativ Film

Longe dos filhos, o cineasta conviveu com um sentimento muito familiar: a solidão, algo que o próprio Forman tentava entender como expressar no cinema. A busca por afeição familiar, sentimento ausente ao longo da vida, também foi uma constante em sua vida. É inquietante - e até desconcertante - como Forman fala com naturalidade sobre a perda dos seus pais em um contexto tão extremo.

Essa naturalidade sincera está presente em todas as temáticas, sobretudo ao falar sobre como os filmes que saíram na época que ele encontrou na escola de cinema eram chatos por serem primordialmente ferramentas de manipulação governamental.

Com uma vida tão cheia de acontecimentos, Forman vs Forman parece muito curto perto de tudo o que ele viveu. Apesar disso, o documentário oferece uma homenagem bonita à um dos diretores mais importantes da história do cinema.