Crítica: Golpe 53

Golpe 53 está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

O cinema exerce um papel muito importante em contar para o mundo histórias de eventos reais que mudaram o rumo de uma comunidade ou um país. Enquanto filmes hollywoodianos adicionam acontecimentos fictícios pensando no desenvolvimento narrativo da história em tela, os documentaristas são responsáveis por nos contar o que verdadeiramente aconteceu.

Esse é o caso de Golpe 53, filme dirigido pelo iraniano Taghi Amirani, co-escrito e editado por Walter Murch. Nascido no Irã e criado na Grã-Bretanha após a fuga da família para a Inglaterra, Amirani dedicou quase uma década em investigações sobre a história por trás do golpe que gerou a queda do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh em 1953. Ao visitar o Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington, o cineasta encontra uma gaveta com documentários que descrevem uma trama conspiratória criada pela inteligência americana e britânica, liderada pelo agente da CIA Kermit Roosevelt Jr. Uma conspiração que mudou o rumo do seu país de origem.

Apesar do envolvimento dos EUA no golpe ser bastante conhecido desde o começo dos anos 2000 após a liberação dos documentos secretos da época, a Grã-Bretanha tem uma lei específica que não permite que informações consideradas confidenciais sejam divulgadas mesmo depois de tanto tempo. Entretanto, os interesses petrolíferos do britânicos no Irã não eram exatamente um segredo de estado. Com isso em mente, Amirani tem como objetivo encontrar provas do envolvimento da Grã-Bretanha no golpe.

Foto: Amirani Media


Em suas investigações, Amirani faz uma grande descoberta ao vasculhar as transcrições de uma série de TV britânica chamada End Of Empire, exibida em 1985. Diferente do que foi exibido na televisão, o material original incluía a entrevista com Norman Darbyshire, um oficial de inteligência britânico que fala abertamente sobre todos os papéis que desempenhou no golpe. Essa entrevista foi retirada do programa após uma pré-estreia nos cinemas por pedido do próprio Darbyshire e as revelações nunca foram ao ar.

Sem encontrar essas gravações, Amirani escolheu refilmar as transcrições em reconstituições com Ralph Fiennes como Darbyshire, uma boa surpresa do documentário. A partir daí, o cineasta se afasta da frente das câmeras para dar espaço para as inúmeras entrevistas combinadas com imagens de arquivo. A acertada edição de Murch - editor de filmes como Apocalypse Now, A Insustentável Leveza do Ser e O Paciente Inglês - é fundamental para o extenso trabalho de vasculhar papéis, procurar pessoas e buscar depoimentos pareça emocionante. Além disso, as entrevistas com figuras que estavam em lados opostos também contextualizam as informações encontradas nos arquivos confidenciais.

Com um material tão rico, Amirani e Murch criam um clima de suspense clássico de filmes sobre grandes conspirações. Entretanto, nenhuma adaptação conseguiria contar tão bem essa história como Golpe 53.