Crítica: Jair Rodrigues - Deixe que Digam

Jair Rodrigues - Deixe que Digam está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens.

Olhando a programação do É Tudo Verdade, me deparei com o documentário Jair Rodrigues - Deixe que Digam, me interessei automaticamente e fui ler a sinopse para saber o tom que o diretor Rubens Rewald escolheu. Surpreendentemente, a descrição do filme tem apenas uma linha: "Jair Rodrigues, o retrato de um artista e de um Brasil tão próximo e tão distante". Esse resumo é muito pequeno para o tamanho da vida de um dos maiores músicos da história do país.

Antes do filme começar, Rewald compartilhou que o projeto teria colaboração direta com o próprio Jair Rodrigues, mas infelizmente o cantor faleceu em 2014. Curiosamente, o documentário coloca Jair Oliveira para interpretar o próprio pai e contar memórias importantes da carreira do músico. É impressionante como ele consegue imitar o tom de voz exato do pai, além de todos os movimentos corporais característicos.

No entanto, o documentário não fica apenas nisso. Recheado de boas entrevistas com pessoas que conviveram com o músico ou foram impactadas por sua carreira, Jair Rodrigues - Deixe que Digam é primorosamente repleto de imagens de arquivo do cantor. Entrevistas para diferentes lugares, shows, apresentações para a televisão e fotografias dão corpo ao documentário e contextualizam muitas das lembranças compartilhadas. Dá pra sentir como Jair Rodrigues deixou saudades em todos que conviveram com ele. Entre comentários que exaltam sua inegável habilidade vocal e física, amigos, companheiros de profissão e familiares enaltecem o espírito desse homem que vivia sorrindo e não sabia ser triste.

Mesmo sem ter estudado música, ele tinha um ouvido impressionante e estava constantemente cantando e brincando com as músicas. Um dos músicos da sua banda comenta que Jair Rodrigues não parava de cantar ou cantarolar alguma melodia, criando suas próprias versões de qualquer música que passava pela cabeça.

Foto: Jair Rodrigues - Deixe que Digam

É triste como a mídia brasileira e grande parte do público atual não valorizam Jair Rodrigues como ele merece. Entre lembranças pessoais, os entrevistados falam sobre canções marcantes do longo repertório do músico, entre elas Disparada. Escrita por Geraldo Vandré e Théo de Barros, a canção ganhou o Brasil na voz de Jair Rodrigues e deu visibilidade nacional para o cantor que era conhecido pela carreira no samba - o próprio Vandré não achava que a música funcionaria na voz de Rodrigues.

Nascido em Igarapava, Jair Rodrigues teve uma formação musical nas canções nacionais que ouvia desde pequeno, especialmente o sertanejo. Ele entendia a mensagem embutida em Disparada e era a pessoa perfeita para cantá-la, porque sua própria família viveu da terra. Por ser conhecido essencialmente como sambista na época, Disparada foi uma conquista para o cantor.

O período da ditadura militar também é abordado pelos entrevistados, que deixam claro que ele foi apolítico. Mesmo que todos entendam que é complexo ter esse posicionamento durante uma época tão extrema da nossa história, o documentário fala que o discurso político de Jair Rodrigues estavam nas músicas que falavam sobre o Brasil. Vivemos em um tempo completamente diferente onde ser abertamente político é necessário, se não obrigatório. Por isso, parece fácil julgar um artista negro como Jair Rodrigues por não se posicionar em uma sociedade racista em plena ditadura. O músico Salloma Salomão resume bem essa posição ao dizer era necessário criar "um personagem para andar pelo mundo onde os negros não andam".

Anos depois, Jair Rodrigues foi abandonado pela mídia nacional em favor dos artistas internacionais. A imprensa simplesmente não estava mais interessada no que ele fazia, especialmente as rádios. Em uma dessas loucuras da vida, o músico foi meu vizinho em Cotia, cidade onde morou até o final da vida. Nunca me deparei com ele pela rua, mas o fato dele morar perto da minha casa tinha uma aura de especial, como se eu fosse uma privilegiada por ter um vizinho tão ilustre.