Crítica: O Espião

O Espião está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

Em O Espião, o detetive particular Rómulo Aitken publica um anúncio em um jornal procurando homens com idades entre 80 e 90 anos. Claramente emocionados por se sentirem necessários, um senhor de 83 anos chamado Sergio Chamy ganha a curiosa vaga de trabalho. O serviço requer que Chamy se infiltre em uma casa de repouso e investigue se uma residente estava passando por maus tratos, seja por residentes ou funcionários.

Com essa premissa simples, o documentário chileno dirigido por Maite Alberdi começa brincando com elementos visuais e narrativos de histórias de detetive e espionagem. O filme se diverte com a diferença geracional entre esses dois homens, especialmente nos momentos em que Rómulo prepara Chamy para sua missão e ensina os significados de códigos de comunicação, apresentando apetrechos tecnológicos que incluem canetas que tiram fotos e óculos que filma. Uma trama que poderia sair de qualquer filme clássico do James Bond, se o protagonista não fosse um idoso que ainda está aprendendo como fazer uma chamada por vídeo.

Foto: Micromundo Producciones


Alberdi cria um clima bastante divertido com a espionagem telegrafada de Chamy, que vasculha quartos, anda em circulo pelos corredores e questiona os residentes constantemente. Só que, com o tempo, o espião se cansou do trabalho e começou a criar laços com os idosos, verdadeiramente se preocupando com o bem-estar de cada um deles. Mesmo que os motivos da sua entrada na casa de repouso tenham sido falsos, suas pretensões se tornam muito mais honestas do que o plano inicial.

A partir daí, O Espião pega um caminho muito mais dramático e doloroso. Com charme e atenção constante, Chamy se torna amigo dessas pessoas que a sociedade se recusa em integrar por serem muito dependentes ou darem muito trabalho. Em um momento muito doce e triste, Chamy consegue fotos da família de uma das residentes que sofre de alzheimer. A experiência também se torna inspiradora para ele por ainda estar em luto após a morte da esposa. O filme nos mostra um olhar triste sobre o envelhecimento e a nossa necessidade de conexão humana independente da idade.

Para justificar a presença de câmeras no local, as quarenta mulheres e quatro homens residentes foram informados que eram o tema de um documentário, mas poucos realmente entenderam o que isso significa. Apesar do estranhamento e da desconfiança inicial, rapidamente os idosos se acostumam com a novidade. E, no fim, isso não deixa de ser verdade. O Espião se torna um estudo inquietante sobre o isolamento e a solidão de pessoas que são abandonadas por suas famílias. O grande vilão de filme não é a casa de repouso, mas os familiares que nunca retornam e a sociedade que os exclui.