Crítica: O Rolo Proibido

O Rolo Proibido está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

É fascinante como o cinema tem o inegável poder de perpetuar nossas histórias como uma cápsula do tempo. Essa é a melhor forma de viajar no tempo, seja para revivermos uma época ou resgatarmos um período que se perdeu. Em O Rolo Proibido [2019], o diretor Ariel Nasr aborda a importância da preservação de filmes como forma de conservar a história de um povo.

Durante toda minha vida, não lembro de ter visto imagens do Afeganistão que não sejam de guerra e destruição. Especialmente depois do 11 de setembro, nos acostumamos com as cenas devastadores do país nos jornais ou as representações heroicas dos militares norte-americanos em filmes hollywoodianos. Isso significa que o povo afegão não teve espaço para contar sua própria história porque ela foi abafada por outras narrativas e apagava ao longo das décadas.

Em seu novo documentário, Nasr, um cineasta afegão-canadense responsável por The Boxing Girls of Kabul [2012], investiga a história do cinema nacional do Afeganistão e revela como alguns apaixonados pela arte arriscaram a própria vida para evitar que extremistas destruíssem esse legado. Durante décadas, muitos dos costumes afegãos foram apagados e completamente destruídos por diferentes grupos. O Rolo Proibido nos apresenta perfis de várias décadas da história do cinema afegão e nos introduz à um país com uma impressionante herança cinematográfica desconhecida por muita gente.

Foto: National Film Board of Canada

Nars teve em mãos um acervo impressionante de filmes felizmente conservados depois de tanto tempo e tantos problemas. Diversas dessas imagens apresentam um país desconhecido para o resto do mundo e para gerações de afegãos que convivem com a guerra há décadas. Para contar essa história, o cineasta conversou com figuras importantes como a atriz Yasmin Yarmal, o diretor Latif Ahmadi, conhecido como Engenheiro Latif e responsável por alguns clássicos do país, e o diretor Siddiq Barmak, que vê o cinema como algo puramente sagrado.

Junto com a artista e ativista Mariam Ghani, esses três personagens falam sobre a Afghan Film, uma organização do estado fundada em 1968 com o objetivo de criar um cinema nacional. A organização também é responsável por um trabalho muito importante: a preservação do arquivo de filmes do país. Em meados da década de 1990, o Talibã chegou ao poder na região e houve a tentativa de apagar completamente qualquer vestígio do que poderia ser infiel. O cinema entrava nessa categoria por ter conceitos progressistas, como a defesa dos direitos das mulheres.

Quando alguns membros do Talibã queriam destruir o arquivo nacional, o chefe de rádio e televisão da época secretamente avisou os funcionários que ainda restavam no Afghan Film para esconderem os rolos de filmes mais importantes. A solução foi criar uma sala secreta para esconder esses filmes e separaram rolos de produções soviéticas, americanas e indianas para queimar. Se não fosse por essa ação corajosa, toda a história cinematográfica do Afeganistão teria virado cinzas.

O Rolo Proibido faz um trabalho primoroso em apresentar uma imagem completamente diferente da representação unidimensional da mídia ocidental. Cada um desses filmes não são importantes apenas para a indústria cinematográfica do país, mas também para proteger o legado de um povo que quase perdeu toda sua história.