Crítica: Pão Amargo

Pão Amargo está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

Entre os inúmeros cidadãos sírios que fugiram de seu país, cerca de um milhão e meio encontraram refúgio no Líbano. Em Pão Amargo [2019], o cineasta iraquiano Abbas Fahdel acompanha uma comunidade de refugiados que vivem no Vale Beqaa, uma região tradicionalmente conhecida pelo cultivo de uvas para vinho. Buscando informações sobre a região para escrever esse texto, não encontrei qualquer menção aos trabalhadores dessas plantações.

Os refugiados vivem em um acampamento montado na beira de uma estrada com esgoto a céu aberto e devem pagar US$ 500 por ano pelo aluguel de uma tenda precária que não pode ser aumentada. A maioria das pessoas no local são mulheres e crianças que lidam diariamente com a falta de recursos básicos para sobrevivência, além de desastres proporcionados por chuvas que inundam o pouco que tem.

Foto: Abbas Fahdel

Sair da Síria não foi uma questão de escolha para essas pessoas, era a única solução para fugir da morte. Longe do seu país de origem, os sírios são frequentemente tratados como criminosos pelos libaneses da região e as pouquíssimas oportunidades de trabalho que surgem em plantações pagam salários vergonhosamente baixos. Esse rancor é alimentado pelo próprio sistema que trata os refugiados como mão de obra barata, deixando os libaneses da região sem emprego e os sírios sem um salário decente.

Inesperadamente, o único libanês que aparece no documentário é um homem chamado Maher Mahmoud, que trabalha como um “shawish”, título dado para os responsáveis pelos campos de refugiados na região. Cada família assina um contrato com ele e desenvolvem dívidas que dificilmente serão totalmente pagas. É assustador ver que os "shawishs" levam metade do salário dos sírios - que ganham entre US$ 2 e US$ 6 dólares por dia.

A câmera de Fahdel é simples e absolutamente sensível ao ouvir o que esse grupo de sírios têm a dizer. Todos demonstram o desejo declarado de voltarem para a Síria e falam abertamente sobre a possibilidade de retornar quando as coisas melhorarem. É um misto de fé e esperança inquietantes, porque a realidade parece muito distante disso. Fahdel tem o importante papel de dar rosto para um povo que se tornou estatística. É difícil não terminar Pão Amargo não pensando em como essa traumatizante experiência mudou a vida de gerações de crianças que perderam familiares, casas e, aos poucos, sem ligação com uma Síria agora dizimada.