Crítica: 17 Quadras

17 Quadras faz parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Em 1991, Davy Rothbart conheceu Emmanuel Sanford-Durant, de nove anos, e o irmão mais velho Smurf durante um jogo de basquete. Amigos, Rothbart deu de presente para os irmãos uma câmera de vídeo para que eles filmassem seu dia-a-dia em um dos bairros mais perigosos dos EUA - apenas 17 quarteirões do edifício do Capitólio em Washington, DC. Rapidamente, a câmera ligada se tornaria um hábito entre a família. Sem imaginar o que o futuro traria, eles continuaram filmando pelos próximos 20 anos, resultando em um material de 1.000 horas de filmagens brilhantemente editadas por Jennifer Tiexiera.

17 Quadras [2019] se concentra em quatro gerações da família Sanford, incluindo Smurf, um traficante de drogas local, sua irmã Denise, uma aspirante a policial, e seu irmão mais novo Emmanuel, um estudante promissor. Os três jovens são criados pela mãe Cheryl, uma mulher que teve uma juventude promissora, mas foi vítima de uma violência hedionda e lida com dependência química.

Foto: Davy Rothbart

Enfrentando a dura realidade de criar os filhos sozinha, Cheryl os incentiva a terem uma vida saudável, mesmo sabendo que ela não é o melhor modelo a ser seguido. Apesar de ser o mais novo, Emmanuel é quem melhor entende como o vício pode ser prejudicial apenas vendo o exemplo da própria mãe. Entretanto, quando uma tragédia familiar acontece, a família entra em uma espiral de luto, questionando como as próprias ações desencadearam uma fatalidade.

17 Quadras faz um retrato muito pessoal dos Sanford’s e dá um rosto para inúmeras outras famílias afro-americanas que também sofrem com o descaso social e governamental. Rothbart e Tiexiera não nos polpam de imagens cruas da família Sanford - em um momento específico, vemos Cheryl usando cocaína, enquanto compartilhar o sonho de ter uma família de comercial de margarina. Entretanto, o filme não usa imagens como essa para julgar a família, deixando a câmera apenas como uma testemunha dos pequenos momentos de alegria do dia-a-dia, das grandes intempéries da vida e das ações de cada um.

Essa câmera sem julgamentos permite que o filme explore pensamentos sobre pesar, culpabilidade e perdão. É inquietante ver uma família suportando o que parece ser um fardo hereditário e a luta constante para quebrar esse ciclo. O resultado é um filme doloroso e honesto com uma mensagem poderosa sobre redenção.