Crítica: Coronation

Coronation faz parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Em 1 de dezembro de 2019, o primeiro paciente com sintomas de Covid-19 foi identificado em Wuhan. As autoridades chinesas passaram semanas negando que a transmissão de pessoa para pessoa era possível, ocultando o número de pacientes diagnosticados e punindo profissionais de saúde que divulgavam informações. Em 23 de janeiro de 2020, o governo chinês colocou Wuhan sob bloqueio em uma tentativa de controlar a expansão da doença para outras cidades.

Dirigido remotamente por Ai Weiwei, Coronation [2020] explora o bloqueio em Wuhan antes, durante e depois que o vírus se espalhou pelo mundo. Contando com imagens gravadas pela própria população quarentena, o filme registra a resposta militarizada e brutalmente eficiente do Estado para controlar o vírus. O documentário examina o poder chinês em controlar cada dia do bloqueio, enquanto mostra histórias reais de pessoas afetadas pela máquina do Estado.

Foto: Ai Weiwei

Enquanto a câmera anda por hospitais temporários e enfermarias de UTI, mostrando todo o processo de diagnóstico e tratamento de pacientes, o filme também foca em pequenos momentos da vida de pessoas que viveram sob o confinamento e enfrentam diferentes problemas. Um casal tenta retornar para casa em Wuhan, um operário que trabalhou na construção de um dos hospitais e é forçado a viver em um estacionamento enquanto a cidade permanece fechada, um mensageiro responsável por entregar artigos essenciais para os residentes, uma mãe e seu filho presos em casa debatem a manipulação da mídia e a resposta do país ao surto e um filho enlutado enfrenta uma dolorosa burocracia para recuperar as cinzas do pai.

Coronation dá diferentes rostos para um povo que foi muito afetado por escolhas governamentais que não priorizaram as pessoas. A mídia tem o costume equivocado de ver a China como um bloco, não dando espaço para percepções individualizadas dos chineses. O documentário oferece uma visão menos universal do país ao focar nas pessoas, especialmente ao mostrar pacientes e familiares entrevistados refletindo sobre a pandemia e demonstrando ressentimento com a forma como o governo lidou com a expansão da doença e a própria restrição durante o fechamento da cidade.

É doloroso ver o sofrimento de pessoas que perderam seus entes queridos e não foram capazes de se despedir. A falta de informação confiável afetou uma geração que, como uma das entrevistas diz, deixa uma sombra em cada um deles e em muitos de nós.