Crítica: Cozinhar F*der Matar

Cozinhar F*der Matar faz parte da seleção de filmes da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Dirigido pela eslovaca Mira Fornay, Cozinhar F*der Matar [2019] é um filme complexo e um tanto confuso que requer paciência para embarcar. Estruturado com um prólogo e três capítulos que se repetem, a história acompanha o motorista de ambulância Jaroslav (Jaroslav Plesl), um ciumento patológico que vive com medo de que a esposa Blanka (Jazmína Cigánková) o deixe e leve os filhos. Um dia, Blanka tira os crianças da casa da família e os deixa com a avó, levando a chave do portão consigo e não permitindo que Jaroslav entre no quintal para ver as crianças.

Em troca da permissão para entrar, Blanka quer o apartamento da mãe de Jaroslav, Dorota (Regina Rázlová). Entretanto, Dorota só concordará em passar o apartamento para a enteada se o ex-marido Kamil (Jan Alexander), pai de Jaroslav, cozinhar um jantar em família. Kamil só aceitará se Gustav (Bohuslav Zárychta), pai de Blanka e atual amante de Dorota, matar um boi para o churrasco.

Durante o tempo em que Jaroslav entra em uma jornada para facilitar a realização de cada pedido, conhecemos a complexa relação entre os personagens, especialmente entre o casal. Cozinhar F*der Matar coloca uma lupa nos relacionamentos não saudáveis que se repetem em famílias disfuncionais. Seguindo o exemplo dos próprios pais, o casal está preso em um padrão comportamental tóxico para si mesmos e para as pessoas que os rodeiam. A medida que a história avança, fica claro que Blanka e Jaroslav estão repetindo os hábitos dos próprios pais. 

Foto: Cineart TV, MIRAFOX

Em uma cena brutal, Gustav tenta dissuadir Jaroslav de abusar fisicamente de Blanka, dando nele a mesma surra que ele costumava dar na mãe de sua filha. Acompanhado de comentários da própria Blanka sobre o abuso físico que a mãe sofreu, a sequência reforça o ciclo de violência dessa família. É dolorosamente irônico Gustav sofrer pela filha depois prejudicar tanto a ex-mulher.

Nos três capítulos, Jaroslav segue os mesmo caminhos e vê as mesmas situações em tempos diferentes, enquanto tenta aprender com as escolhas erradas que fez na tentativa anterior. Porém, Jaroslav está tão preso nas próprias convicções que nunca realmente simpatiza com os danos que inflige na esposa e nos filhos, que se escondem do pai.

Essa falta de empatia também domina o próprio filme, que falha em abordar com seriedade as consequências da violência doméstica. Em determinados momentos, Cozinhar F*der Matar parece simpatizar mais com o abusador do que com a vítima. Ainda que Jaroslav expresse verbalmente preocupação com os filhos, suas ações são essencialmente focadas no próprio egoismo e na paranoia de perder a esposa.

Em boa parte do tempo, o roteiro de Fornay é bem menos explícito em condenar a gravidade das ações de Jaroslav do que em condenar o pedido de Blanka, que parece estar mais interessada em comprar tempo para fugir da relação abusiva do que em querer o tal apartamento. Levando a história para o reino das metáforas, o resultado é um filme excessivamente longo que passa uma mensagem difusa demais para criar algum impacto.