Crítica: Fico Devendo uma Carta Sobre o Brasil

Fico Devendo uma Carta Sobre o Brasil está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens.

Em agosto de 1971, César Benjamin foi preso durante protestos estudantis contra a ditadura militar brasileira. Mesmo sendo menor de idade, César foi julgado como adulto após um teste psicológico que afirmou que ele tinha a inteligência de um homem de 35 anos. O adolescente foi condenado a 13 anos de prisão, mas graças à poderosa e incessante campanha de sua mãe Iramaya, que trabalhou em colaboração direta com a filial sueca da Anistia Internacional, ele foi libertado cinco anos depois. A prisão dos dois filhos, especialmente o mais novo, mudou o rumo da vida de Iramaya e transformou a dona de casa em uma militante incansável.

Embora não seja um caso desconhecido, a cineasta Carol Benjamin nunca realmente conheceu profundamente essa parte da história da sua família. Em Fico Devendo uma Carta Sobre o Brasil, [2019], a diretora compartilha um conto muito pessoal que espelha as histórias de inúmeras famílias brasileiras. Traumatizado pela experiência, César nunca compartilhou as memórias da prisão - especialmente os três anos e meio que esteve em uma solitária - até muito anos depois, então ficou para a Iramaya contar essa história.

Carol traça a vida do pai desde a prisão até seu exílio na Suécia e retorno ao Brasil, usando depoimentos de Iramaya captados em momentos diferentes, fotografias e imagens de arquivo. Parte esse acervo está na Suécia, para onde a cineasta viajou para se encontrar com pessoas que estiveram envolvidas na campanha pela libertação de César. 


Foto: Daza Filmes

Porém, a parte mais importante do documentário são as leituras de cartas enviadas pela avó para Marianne Eyre, membro da Anistia Internacional desde 1966. Ao longo dos anos, Iramaya e Marianne criarem um vínculo de amizade baseado na confiança mútua e sentimentos compartilhados sobre maternidade.

Além de contextualizar a história do pai, as cartas também foram responsáveis para Carol descobriu uma versão da avó que nunca havia visto em momento algum. Reconhecida como uma pessoa forte que lutou contra um sistema opressor, Iramaya escondia uma solidão profunda. Nas cartas, ela compartilha inquietações pessoais sobre não ter objetivos depois que os filhos seguiram com suas vidas.

Exista uma sensação muito presente de hereditariedade no trabalho de Carol. Não apenas por estar revisitando a história da família, mas por questionar como será o país dos próprios filhos. O documentário deixa no ar uma premonição ruim - e difícil de ignorar - sobre nosso presente e futuro como nação. Fico Devendo um Carta sobre o Brasil faz uma conexão importante entre o passado recente do país e o complexo presente. Em última instância, o documentário serve de alerta sobre como ignorar nossa história é a forma mais rápida de repetir os mesmos erros.