Crítica: Influência

Influência está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

Determinados filmes contam histórias tão absurdas que é impossível não sentir indignação quando assistimos. Influência [2020], documentário dirigido por Diana Neille e Richard Poplak entra nessa categoria com facilidade. Nascido de uma família modesta da classe trabalhadora, Timothy Bell foi o fundador de uma das maiores multinacionais britânicas, a Bell Pottinger. O documentário investiga a ascensão e a queda da empresa de relações públicas e gestão de reputação. Porém, essa não é apenas a história sobre uma empresa que simplesmente faliu.

Responsável por transformar Margareth Thatcher em A Dama de Ferro, Bell projetou campanhas de políticos impopulares, ditadores, empresas com má fama e celebridades com todos os elementos e características de uma marca de produtos. Entretanto, o publicitário não estava vendendo pasta de dentes ou refrigerante, ele estava manipulando a geopolítica em diversos países. No final da década de 1980, a Bell Pottinger se tornou rapidamente uma das empresas de gestão de reputação mais influentes do mundo. Seu alcance era assombroso, até que uma dessas campanha incitou a divisão racial na África do Sul e arruinou a reputação da empresa.

Misturando imagens de arquivo e entrevistas com Bell e pessoas que trabalham com ele, a favor dele ou contra ele, os cineastas nos conduzem em um emaranhado de eventos que mudaram o rumo de diversos países. Entre as pessoas que tentam defender o trabalho que fizeram na Bell Pottinger, Influência reúne um grupo de inglês muito poderosos tentando explicar o inexplicável. Bell se deleitou com o poder incontestável que teve durante muitos anos.

É enfurecedor vê-lo normalizando ditadores sem a menor empatia pelas vítimas que essas pessoas e seus sistemas políticos - que ele ajudou a perpetuar - fizeram. Em alguns casos, ainda fazem. Em entrevistas, é perceptível a admiração de muitos dos profissionais que trabalharam com ele. É quase como se ele fosse um libertino revolucionário e não uma pessoa sem qualquer escrúpulos. Esse foi o homem que ofereceu seus serviços de publicidade para pessoas como Augusto Pinochet.

Foto: Storyscope e Eyesteelfilm


Mesmo que Bell compartilhe sua própria história e faça comentários sobre determinados eventos, o documentário não tira a responsabilidade de tudo o que ele ajudou a criar. Seguindo os eventos cronologicamente, Influência tem o objetivo de seguir passo a passo do crescimento de Bell como publicitário de Tatcher e as ramificações desse trabalho em outros países.

Com tantas informações, Influência será um problema para quem não tem algum conhecimento sobre o noticiário mundial da última década ou mais. Alguns assuntos ganham menos espaço que outros, como no caso da infame Cambridge Analytica. O foco maior do documentário está no envolvimento de Bell e da Bell Pottinger nos conflitos raciais criados pelos irmãos Gupta no governo sul-africano. Os personagens responsáveis por essa descoberta que gerou a queda da Bell Pottinger ganham o merecido destaque, como a jornalista investigativa Marianne Thamm e a política Phumzile van Damme.

Em sua essência, o filme explora como as táticas de trabalho de Bell se tornaram inspiração para a geração de desinformação deliberada que vemos hoje em dia. Entretanto, o documentário tem tantas informações que isso acaba saindo de foco em determinados momentos. Mas, de fato, é difícil terminar Influência sem questionar qual será o próximo grande golpe que alguma nação sofrerá na mão de homens poderosos e inescrupulosos. Timothy Bell foi apenas um deles.