Crítica: Miss Marx

Miss Marx faz parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Escrito e dirigido pela italiana Susanna Nicchiarelli, Miss Marx [2020] conta uma história quase ficcional de Eleanor Marx, filha mais nova do filósofo Karl Marx. Nos primeiros minutos do filme, vemos Eleanor (Romola Garai) no enterro de Marx fazer um discurso apaixonado sobre relação dos pais. Apesar da tristeza e clara solidão, Eleanor também sente que finalmente tem liberdade para conquistar os próprios objetivos sem a sombra do pai.

Rapidamente, fica claro que Miss Marx não tem o objetivo ser uma cinebiografia precisa ou até mesmo um filme de época tradicional. Quebrando a quarta parede e vagando por flashbacks inesperados, o filme não apresenta apropriadamente nenhum dos personagens, deixando a história inexplicavelmente confusa sempre que um novo personagem aparece. Além da confusão narrativa, a escolha de Nicchiarelli em não se preocupar em identificar ninguém também pode desorientar quem não está familiarizado com as figuras reais que aparecem em tela. 

Foto: Vivo Film, Rai Cinema, Tarantula

Em Miss Marx, o foco - ainda que confuso - está em Eleanor e na conflituosa relação com o dramaturgo Edward Aveling (Patrick Kennedy). O ativismo político sindical da protagonista ganha destaque em poucos momentos, mas pouco se explica sobre sua importância em eventos reais ou se aprofunda na prática do seu trabalho. É quase como se esses pequenos momentos estivessem ali apenas para nos relembrar rapidamente quem ela era, confiando que o público conhece profundamente sua história.

Nicchiarelli contrasta os ideais revolucionários de Eleanor, especialmente os pensamentos sobre liberdade feminina, com as escolhas equivocadas na vida pessoal. A ativista política insiste em permanecer ao lado de um homem declaradamente mentiroso e inegavelmente traidor com a fama de pedir empréstimos que não consegue ou não tem a intenção de pagar.

É inquietante ver como a personagem murcha a medida em que a relação com Aveling piora. O tom anárquico empregado pela edição destoa das escolhas que a própria personagem fez em vida. Nicchiarelli queria confrontar as ideias de Eleanor com a sociedade patrimonial tradicional, mas o resultado é um filme que não consegue ser tão provocativo quando parece.