Crítica: Nova Ordem

Nova Ordem faz parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Escrito e dirigido por Michel Franco, Nova Ordem [2020] é um thriller distópico que conta a história de uma rica família mexicana que está realizando uma festa luxuosa para comemorar o casamento de um dos membros. Enquanto isso, a Cidade do México ferve com protestos que abrem caminho para um violento golpe de Estado. Visto pelos olhos de Marianne (Naian González Norvind), a jovem noiva, e das pessoas que trabalham para essa família, o filme mostra o colapso do sistema político e as imediatas ramificações dessa mudança.

Tenho fascínio por histórias distópicas por criarem representações inovadoras de controle opressivo de toda uma sociedade, nos permitindo analisar nossa própria realidade no seguro ambiente da ficção. Sempre que penso em distopias cinematográficas, lembro de Filhos da Esperança, filme dirigido por Alfonso Cuáron em 2006. Um dos meus filmes favoritos, o diretor mexicano conseguiu criar uma história sobre uma sociedade que se tornou insensível depois que uma estranha anomalia tornou todas as mulheres do planeta inférteis. Cuarón desenvolve o clima de tensão necessário para o expectador entender e sentir que esse mundo é perigoso, sem precisar tornar o filme um banho de sangue desnecessário. Quando uma ação violenta acontece, sentimos o impacto desse evento por conta dessa cuidadosa construção narrativa.

Foto: Les Films d'Ici, Teorema Films

Nova Ordem segue um caminho completamente diferente, expondo uma violência tão intensa que, depois de determinado ponto, o efeito de distanciamento não nos permite sentir qualquer coisa. A partir daí, não faz mais sentido desejar que exista justiça ou até mesmo esperar alguma conclusão construtiva para a história. Além de questões morais envolvendo como mostrar violência em tela, banalizar a brutalidade nos condiciona a normalizá-la, porque ela se torna parte da nossa realidade. Os programas policiais televisivos são exemplos simples desse condicionamento - o público vê tantos casos de violência que os eventos se tornam comuns e nada mais os escandaliza.

Franco faz o mesmo processo em Nova Ordem ao tornar a agressividade generalizada o personagem central do filme, relegando aos próprios personagens o papel de serem apenas ferramentas para essas ações. Qualquer reflexão sobre a ganância de pessoas que se aproveitam dos outros em situações extremas, se perde quando a cobiça se transforma em um elemento universal. Nova Ordem não dá espaço para o expectador pensar sobre quem estaria se beneficiando com a desordem, porque qualquer tentativa de raciocínio se perde em um mar de eventos horríveis.

Entrando no universo distópico, Franco queria falar sobre como o governo mexicano é culpado pela situação complexa que o país vive há décadas e, especialmente, abordar a facilidade que sermos manipulados por figuras poderosas. Retirando qualquer senso de empatia, o que resta para uma história distópica, afinal? Nova Ordem falha miseravelmente em criar qualquer outro sentimento que não seja a repulsa.