Crítica: O Charlatão

O Charlatão faz parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Cinebiografias são territórios complexos que podem seguir caminhos diferentes e terem resultados distintos, mas todas esbarram no mesmo elemento: a precisão histórica. Levemente inspirado na história de Jan Mikolášek, o fitoterapeuta e curandeiro tcheco que se tornou uma figura cult na década de 1930, O Charlatão [2020] mistura eventos reais com bastante licença poética para explorar momentos da vida do curandeiro que ganhou reputação e a riqueza durante a ocupação nazista e sob o regime comunista.

Dirigido pela polonesa Agnieszka Holland, a trama começa com a morte do presidente da Tchecoslováquia, Antonín Zápotocký, o cliente mais famoso de Mikolášek (Ivan Trojan). Sem a proteção de alguém no alto escalão, o curandeiro foi levado a julgamento pelo governo comunista, que não aceitava nenhum tratamento medicinal que não fosse o oficial estatal e via suas práticas como charlatanismo. Enquanto Mikolášek é questionando sobre a carreira na prisão, vemos momentos importantes da sua vida em flashbacks.

Sem criar nenhuma ambiguidade para as práticas de Mikolášek, o filme o trata como uma figura quase fantástica que tem o dom extraordinário de dar diagnósticos cheios de detalhes para os pacientes, apenas examinando a olho nu suas amostras de urina em frascos transparentes. O Charlatão apresenta um homem que, além de conhecimento apurado sobre as propriedades medicinais das plantas, tinha uma aptidão quase milagrosa de curar pessoas.

Foto: Furia Film

É inegável que Holland e o roteirista tcheo Marek Epstein carregam alguma admiração por Mikolášek pela forma como o filme dá um destaque apaixonado para a dedicação obsessiva do curandeiro em cuidar de pessoas independente do retorno financeiro. O filme justifica todas as ações do protagonista, mesmo a aproximação dele com os nazistas, algo apontado como situacional e não ideológico.

Esse culto à personalidade não permite que o roteiro se aprofunde em questões que permanecem apenas na superfície, como a inexplicável agressividade surgida ainda na adolescência e a relação controladora com seu assistente e amante Frantisek Palko (Juraj Loj).

Se a história nos mostra um homem completamente focado no que vê como uma missão divina, a pouca vulnerabilidade exposta no filme está na relação secreta com Palko, um elemento fictício baseado no casamento fracassado de Mikolášek e no fato do seu assistente ter morado com ele.

Essa complexa relação acaba sendo o fator mais interessante do filme, especialmente pela óbvia angústia do protagonista em manter o caso e, ao mesmo tempo, não querer viver sem ele - é esse vínculo que torna o desfecho da história mais atraente do que poderia. No fim, o tom quase messiânico que O Charlatão trata Mikolášek rende algumas cenas inspiradoras, mas é uma pena que a execução do filme não seja tão cativante quanto a ideia de fazê-lo.