Crítica: O Nariz Ou A Conspiração dos Dissidentes

O Nariz Ou A Conspiração dos Dissidentes faz parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Uma mistura intrigante de animação e ópera, O Nariz Ou A Conspiração dos Dissidentes [2020] nos ambienta na Rússia do século XX - precisamente no período em que Josef Stalin esteve no poder. Usando fragmentos inspirados no clássico O Nariz, escrito por Nikolai Gogol em 1836, o filme utiliza a composição homônima de Dmitri Shostakovitch da década de 1920 para nos apresentar importantes personagens da época e obras-primas de artistas, compositores e escritores russos de vanguarda que viveram durante esse período de totalitarismo.

Dividido em duas partes, o diretor Andrey Khrzhanovskiy criou uma história visual e narrativamente ambiciosa, experimentando diferentes estilos e técnicas de pintura em uma das animações mais visualmente atraentes que vi recentemente. Com uma estrutura narrativa não convencional, a animação metalinguística é um caos (quase) organizado que tem como objetivo fazer um retrato da cultura e da política russa durante o século XX.

Na primeira metade, O Nariz Ou A Conspiração dos Dissidentes foca essencialmente na obra de Gogol e nas inúmeras referências de artistas russos importantes, como o caso de Vsevolod Emilevitch Meyerhold, um dos maiores diretores e teóricos de teatro da primeira metade do século XX. Para qualquer grande conhecedor da cultura russa, a animação será uma festa de referências que mostram uma clara admiração pela cultura local.

Entretanto, para quem conhece pouco sobre esse vasto campo - como eu -, a animação será um desafio pela enxurrada de referências que podem fazer pouco sentido e geram momentos tediosos. A ópera também é um obstáculo para manter o expectador atento, já que o gênero artístico teatral não é para todos - texto inteiramente cantado não é a minha primeira opção de diversão.

Foto: Andrey Khrzhanovskiy

Já a segunda parte de O Nariz Ou A Conspiração dos Dissidentes é mais politicamente carregada ao introduzir Stalin na história como um expectador da ópera O Nariz que assistindo na primeira parte. Com o desfecho da história, vemos o líder soviético reagindo negativamente ao que viu e descrevendo a ópera como uma "cacofonia", opinião compartilhada com os companheiros mais próximos.  

Mesmo que o filme se inspire na composição homônima inspirada em O Nariz, a campanha negativa contra Shostakovitch realmente aconteceu com Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, uma ópera em quatro atos inspirado em uma novela curta de mesmo nome publicada em 1865 por Nikolai Leskov. Em uma campanha instigada por Stalin, artigos condenavam a ópera como formalista, "grosseira, primitiva e vulgar". As críticas causaram a diminuição no número de encomendas de novos trabalhos para o compositor e, consequentemente, geraram problemas financeiros para Shostakovitch.

O Nariz Ou A Conspiração dos Dissidentes nos apresenta histórias de artistas que foram presos, torturados e mortos pelo regime de Stalin acusados de trotskismo e formalismo. O formalismo russo, que se tornou um termo pejorativo no domínio do líder soviético, foi uma influente escola de crítica literária que existiu na Rússia de 1910 até 1930 que teve como objetivo o estudo da linguagem poética como tal.

Apesar de exaustivo e confuso em determinados momentos, a animação de Khrzhanovskiy tinha como claro objetivo abordar a importância do pensamento independente na cultura e na sociedade, algo que o filme alcança com sucesso na parte final. Mesmo que parte do impacto emocional do filme não seja sentido por grande parte da audiência não especializada em cultura russa, O Nariz Ou A Conspiração dos Dissidentes é uma animação estilosa que pode ser um ponto de partida para novos conhecimentos.