Crítica: Sibéria

Sibéria faz parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Determinados enredos usam estudos de psicologia para falar sobre temáticas universais e facilmente reconhecíveis. Enquanto a maioria das histórias contextualiza esses assuntos para torná-los mais palpáveis para o público, Sibéria [2020], novo filme dirigido por Abel Ferrara, mergulhou de cabeça em O Livro Vermelho, manuscrito escrito pelo psiquiatra suíço Carl Jung entre 1915 e 1930.

Escrito pelo roteirista e psicólogo Christ Zois, Sibéria acompanha Clint (Willem Dafoe), um homem atormentado pelo passado que vive isolado em uma casa nas montanhas. Administrando uma modesta cafeteria, ele interage com os poucos viajantes e nativos que param para tentar se esquentar nesse ambiente hostil. Porém, as interações não vão além de gestos e deduções, já que ninguém fala seu idioma.

Apesar de estar longe de tudo e todos, Clint não consegue encontrar paz e vive inquieto com questões do passado que nunca conseguiu - ou quis - resolver. Certa noite, ele acaba embarcando em uma viagem interna por pesadelos, memórias e delírios, nos levando para um louco passeio por sua mente angustiada.

Sibéria é um filme complexo que não demora para entregar sequências surreais que abordam assuntos muito profundos da jornada pessoal de Clint, como a difícil relação com o pai e os problemas não resolvidos com a ex-esposa. Cada sequência dá ao expectador a estranha sensação de estar vendo os sonhos de outra pessoa, território que não nos permite ter qualquer controle. 

Foto: Vivo Film, Rai Cinema, Maze Pictures, Piano

Estou longe de ser uma grande conhecedora em Jung, mas alguns conceitos são importantes explicar - de uma forma muito simples, tenha isso em mente - para que Sibéria faça sentido. Jung teorizou que, para uma pessoa ser capaz de alcançar todo seu potencial, ela precisa ter conhecimento completo sobre si mesma. Isso requer a descoberta de seu inconsciente através de um processo chamado individuação, que se baseia na análise de sonhos. Exemplificando, significa que existem sinais importantes em todos os nossos sonhos, mesmo os mais irreais e sem explicação óbvia.

Para Clint, ter pesadelos sobre ataques de urso é um sinal da sua fobia ao animal, enquanto sonhar com o pai o convidando para pescar mesmo depois da morte, pode representar o desejo de uma aproximação que nunca existiu em vida. Cada sonho excêntrico do protagonista carrega enormes parcelas de culpa, temor e insegurança que representa alguma questão profundamente enterrada na mente desse homem que fugiu da vida que tinha. Ao evitar as próprias memórias e sentimentos, Clint é confrontado por elas nos sonhos.

Ao aplicar o processo de decodificação de sonhos, Sibéria é um filme psicologicamente denso que poderá fazer pouco sentido sem referência prévia. O filme não tem o objetivo de te orientar pelos sonhos de Clint e um expectador desavisado ficará facilmente perdido na proposta, mesmo com o conceito de "inconsciente coletivo" do psiquiatra.

Ferrara aposta que o público se envolva com a história de Clint a partir de instintos que Jung acreditava que todos nós herdamos já no nascimento - como medo de ser devorado por um animal. Entretanto, o diretor não escolhe estímulos óbvios para criar essa relação entre expectador e protagonista, o que mostra o desejo de ir além do que apenas falar sobre um homem solitário que revisita suas escolhas, medos e inseguranças por sonhos. Sibéria é uma viagem enlouquecedora que requer paciência, mas vale a pena embarcar.