Crítica: Silêncio de Rádio

Silêncio de Rádio está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

O que seria de nós sem os jornalistas que investigam e denunciam escândalos políticos e sociais? Com essa pergunta em mente, o documentário Silêncio de Rádio [2019] segue o trabalho de Carmen Aristegui, uma conhecida jornalista e radialista mexicana que tem como missão denunciar a sistemática corrupção governamental. Seu trabalho é visto pela população como um foco de luz em um sistema social e político tão corrompido.

Em março de 2015, Aristegui era âncora de notícias de um programa de rádio ouvido por 18 milhões de pessoas. Após a revelação de um escândalo de corrupção envolvendo o presidente Enrique Peña Nieto, Carmen e toda a equipe do programa foram demitidos da rádio MVS sem grandes explicações - curiosamente, 80% dos rendimentos dessa emissora eram dados pelo governo. Rapidamente, a população reagiu com protestos e a jornalista começou uma luta pela liberdade de imprensa.

Durante quatro anos, a cineasta Juliana Fanjul acompanhou Aristegui durante o processo de retomada da carreira depois que nenhuma emissora teve coragem de contratá-la. Sabendo da importância de continuar chamando a atenção dos mexicanos para a má administração pública e a desinformação gerada pela mídia nacional, a jornalista tirou recursos do próprio bolso para criar uma plataforma de notícias para a internet.

Foto: Juliana Fanjul

Silêncio de Rádio contextualiza como o trabalho de Aristegui e outros jornalistas é extremamente perigoso quando não está alinhado com a corrupção. Vemos ela e equipe de jornalistas investigativos que comanda recebendo ameaças constantes de organizações criminosas, enquanto profissionais de outras regiões são assassinados em plena luz do dia. Pouquíssimas pessoas teriam coragem de continuar exercendo a profissão nessas circunstâncias.

Essa ameaça se torna palpável quando o escritório de Aristegui é invadido por dois homens que não se preocuparam em esconder o rosto. "Você estaria preparado para morrer por este trabalho?" pergunta a diretora. “Ninguém deve morrer por causa de seu trabalho”, responde um dos colegas da jornalista. A própria Fanjul compartilha que teve o apartamento arrombado e começou a ser seguida depois que se aproximou da radialista.

Além de seguir Aristegui, o documentário compartilha a realidade mexicana a partir de narrações da própria diretora. Em alguns momentos, o filme é desolador pelas imagens bastante gráficas de execuções e pela angústia da população que quer respostas sobre o desaparecimento de um grupo de estudantes assassinados em 2014. Fica a cargo de Fanjul também partilhar os pensamentos e sentimentos de um povo cansado, mas ainda resiliente. Qualquer pequeno avanço é um sinal de esperança para quem quer ver mudanças reais no país.

No fim, a popularidade de Aristegui acaba sendo sua melhor proteção. Ela é o retrato de uma classe que se recusa a ser intimidada ou silenciada. A residência desses jornalistas se torna uma forma de sobrevivência. Porém, é inevitável não pensar que não deveria ser tão difícil lutar pela democracia.