Crítica: Suor

Suor faz parte da seleção de filmes da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Nos últimos anos, a internet criou uma longa lista de novos empregos que foram ganhando definições e ramificações com o tempo. Entre elas está a mais famosa de todos: o influenciador digital, um profissional com inúmeros seguidores nas redes sociais que se torna referência para um nicho específico. Em Suor [2020], o diretor sueco Magnus von Horn explora a história da estrela de Instagram Sylwia Zajac, uma instrutora de ginástica viciada em redes sociais que vê a popularidade crescendo, enquanto lida com a própria solidão.

Histórias sobre personalidades de mídia que enfrentam uma vida solitária mesmo com muitos seguidores não são exatamente inovadoras. Vemos diariamente essas figuras se abrindo sobre a própria saúde mental e os problemas que enfrentam diariamente, se tornando referências para pessoas que lidam com questões parecidas. Em Suor, Sylwia não pode se dar ao luxo de mostrar vulnerabilidade em meio a uma rotina física energética compartilhada diariamente em vídeos para o Instagram. A crescente carreira depende da manutenção da imagem de uma pessoa física e mentalmente equilibrada, algo que a protagonista manipula com astúcia e experiência. Até que a solidão se torna grande demais para esconder.

Em um raro momento de vulnerabilidade, Sylwia se expõe e fala sobre como se sente solitária por não ter ninguém que a ame. Rapidamente, a postagem incomum para o perfil se espalha pela internet, deixando um patrocinador incomodado em associar a imagem da marca ao que poderia ser uma "mensagem negativa". Para manter a imagem de vida perfeita, Sylwia não consegue criar laços com outras pessoas e é obrigada a encarar que o mundo superficial online que criou para si mesma é completamente diferente da realidade que vive. A forma como ela tenta roubar atenção na festa de aniversário da própria mãe personifica perfeitamente essa divisão de mundos.

Foto: Lava Films

Em um momento desconcertante, Sylwia encontra uma fã que compartilha detalhes muito pessoais sobre a própria vida, algo que alguém só contaria para uma pessoa realmente próxima. Quando a influenciadora se permite dizer um pouco sobre como realmente se sente, a fã solta uma frase clichê que não oferece nada verdadeiro.

Mesmo com todas as inquietações, Sylwia não questiona a vida que escolheu ou repensa a exposição constante nas redes sociais. Na verdade, ela parece até orgulhosa do excesso de conteúdo que compartilha. Viver em público - e até para o público - é um vício que ela não quer perder.

Entretanto, quando um pervertido começa a rondar sua casa, Sylwia é obrigada a reconhecer elementos preocupantes da fama que construiu. É desconcertante como aquele momento de vulnerabilidade atrai a atenção indesejada de um perseguidor, como se ela estivesse mais segura sendo quase um robô fitness sem personalidade. Em uma tentativa de se comportar como esperam dela, Sylwia se envolve em uma situação que tem um rumo inesperado. Pela primeira vez em muito tempo, a protagonista tem a oportunidade de sentir empatia por alguém que não seja ela mesma.

Magdalena Kolesnik faz um ótimo trabalho em incorporar uma mulher acostumada a manter um sorriso congelado no rosto que esconde o ser humano frágil, solitário e ansioso por atenção - a câmera do diretor de fotografia Michal Dymek é essencial para a construção dessa imagem. Os sentimentos inquietantes de Sylwia são tão reconhecíveis que é fácil o público se relacionar com a personagem. Porém, von Horn nunca se aprofunda nas questões levantadas no filme, como a obsessão de Sylwia pelo corpo perfeito e a mensagem que ela passa para as seguidoras ou o assédio de predadores sexuais que perseguem mulheres online. Suor hesita em olhar de perto qualquer coisa que não seja a própria Sylwia, o que acaba sendo um reflexo involuntário da própria personagem.