Crítica: Welcome to Chechnya

Welcome to Chechnya faz parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

Dirigido pelo cineasta e repórter investigativo David France, Welcome to Chechnya [2020] é um dos documentários mais difíceis que já vi. Focando na monstruosidade cometida contra pessoas LGBTQ+ na Chechênia, o filme segue uma rede de ativistas que precisou aprender como resgatar homens e mulheres perseguidos na região. Em alguns casos, os resgatadores conseguem retirar as pessoas antes delas sofrerem alguma violência física, mas muitas delas tem histórias extremamente dolorosas de aprisionamento, sequestro e tortura.

Enviados para um abrigo secreto na Rússia, as vítimas convivem com o medo de serem descobertas pelas autoridades chechenas, enquanto aguardam a documentação necessária para serem enviadas para outro país com um visto humanitário. Esse é um processo trabalhoso que precisa ser feito rapidamente e requer a ajuda de países e ONGs ao redor do mundo.

Foto: HBO

O documentário revela como conviver com o medo e a incerteza do futuro causa uma profunda instabilidade mental e emocional em cada um dos resgatados. Mesmo nos exemplos de pessoas que conseguiram visto para outros países, o filme mostra como é difícil precisar começar do zero em outro país, longe da família, dos amigos e de tudo que sempre conheceu. Com medo do futuro, muitas das vítimas sofrem com as memórias dos abusos que sofreu e o temor de serem descobertas - o documentário se preocupa em mudar digitalmente o rosto e a voz de cada um para preservar a integridade de todos.

Welcome to Chechnya tem o cuidado de expor como as autoridades do país infundiram na população a necessidade de manter o "sangue puro", incentivando as famílias a matarem os próprios parentes LGBTQ+ para proteger a honra da família - o documentário mostra imagens hediondas de violência. Quando as famílias apoiam seus parentes, eles também sofrem com a perseguição do Estado.

É particularmente doloroso ver como as mulheres são as vítimas mais vulneráveis por serem difíceis de libertar. Presas em casa, muitas delas são agredidas e, silenciosamente, mortas por familiares. Welcome to Chechnya é um soco no estômago, mas uma ferramenta importante para colocar luz em um dos maiores horrores da nossa história recente.