Crítica: Wim Wenders, Desperado

Wim Wenders, Desperado está sendo exibido no É Tudo Verdade - 25º Festival Internacional de Documentários e faz parte da Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens.

Quando você estuda cinema, descobre rapidamente a importância de um roteiro bem estruturado que direcione toda a equipe de produção no caminho certo. Tradicionalmente, um filme começa com uma ideia, se torna um rascunho e depois um roteiro, que pode ou não passar por mudanças ao longo do caminho. Não é incomum pontos significativos de um enredo serem modificados durante as filmagens. Então, dizendo da forma mais clara possível, o marco zero da produção de um filme é o roteiro.

Mas o que acontece quando um contador de histórias cria durante as filmagens? Esse é o caso de Wim Wenders, um dos pioneiros do Novo Cinema Alemão e um dos mais importantes e influentes representantes do cinema contemporâneo. Dirigido por Eric Friedler e Andreas "Campino" Frege, Wim Wenders, Desperado [2020], segue a louca e inspiradora carreira do cineasta nascido em Düsseldorf poucos meses após o final da Segunda Guerra Mundial e que, desde pequeno, desenvolveu um amor inexplicável pelos EUA.

No documentário, Wenders passa por locações icônicas dos filmes que fez e compartilha momentos decisivos do seu trabalho como diretor, produtor, escritor e fotógrafo. Existe uma inegável camada de curiosidade do documentário no trabalho do artista, deixando de lado o tradicional formado de apenas contar a história cronológica desse homem.

Foto: Norddeutscher Rundfunk (NDR) e Studio Hamburg Enterprises (SHE)

Isso fica bastante explícito no depoimentos de pessoas como Patti Smith, Werner Herzog, Patrick Bauchau, Amanda Plummer, Hanns Zischler, Willem Dafoe, Andie MacDowell, Tom Farrell e Francis Ford Coppola. Todos compartilham admiração pelas incríveis criações de filmes como Buena Vista Social Club [1994], Asas do Desejo [1987], Paris, Texas [1984], O Amigo Americano [1977] e Alice nas Cidades [1974], mas os métodos de trabalho de Wenders e a própria personalidade singular do diretor também ganham destaque. Na verdade, é difícil encontrar qualquer linha que separa quem ele é do que ele fez - e ainda faz - pelo cinema.

Existe um tom de nostalgia que vai além do olhar sobre os filmes do cineasta. Wim Wenders, Desperado aborda com certa saudade como a forma de fazer cinema do diretor não é mais aceita pelos estúdios e financiadores. Wenders acredita que não podemos aprender alguma coisa com um filme se a história já está fechada antes das filmagens começarem. Ele vê o cinema como uma jornada e não um meio para um fim. É uma visão bastante romântica do cinema que se tornou apenas um negócio para boa parte da indústria.

É comovente como Wenders não se adequou à esse modelo de negócios cinematográfico, mas se manteve como um artista que corre o risco de falhar a cada novo filme. A história de Hammett - Mistério em Chinatown [1984] envolvendo Coppola é a prova de que ele precisava se manter fiel aos próprios métodos, uma jornada que o ajudou à entender quem era e até se aceitar como alemão. Não é apenas uma história de amor ao cinema, mas uma história sobre ser fiel a quem se é. Além dos filmes em si, esse é o maior legado que Win Wenders deixará para o cinema.