Críticas: O Tremor, Lua Vermelha, Mate-o e Saia Desta Cidade

O Tremor, Lua Vermelha e Mate-o e Saia Desta Cidade fazem parte da seleção de filmes da  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 22 de outubro a 4 de novembro de 2020.

O TREMOR
Histórias experimentais sempre são desafiadoras para cineastas e para o público, especialmente quando a narrativa perde espaço para explorações visuais. Esse é o caso de O Tremor [2020], filme indiano escrito e dirigido Balaji Vembu Chelli. A trama acompanha um fotojornalista que é enviado para cobrir um terrível terremoto em uma pequena vila distante. Animado pela possibilidade de ser um dos primeiros no local, ele se surpreende quando encontra locais vazios e nenhum sinal do desastre natural. Curiosamente, as pouquíssimas pessoas que encontra não sabem sobre o acontecimento ou fingem não saber.

Foto: Fly On The Wall Films

Excessivamente lento, O Tremor tem uma narrativa simples que não desenvolve grandes desdobramentos e o pouco mistério que constrói nos primeiros minutos, se perde rapidamente com longas e repetitivas cenas do protagonista tentando encontrar uma grande história. A câmera de Vembu Chelli parece tão apaixonada pelas paisagens florestais e pela silenciosa busca do fotojornalista que esquece de criar algo verdadeiramente proveitoso a partir disso, deixando apenas um eco do que poderia ser um debate sobre o descaso do governo indiano com o próprio povo em situações emergenciais.

Com uma história rasa, a ambientação sonora de Vivek Anandan e a trilha de Maarten Visser são os maiores destaques do filme por serem os únicos elementos que conseguem manter um pouco do clima de tensão apresentado no início do filme. No fim, O Tremor seria um ótimo curta-metragem, mas a história se estende por tempo demais como um longa-metragem e os poucos elementos atraentes não são o suficiente para torná-lo um bom filme.

LUA VERMELHA
Escrito e dirigido por Lois Patiño, Lua Vermelha [2020] é como um quadro lindamente pintado que precisa de contexto para fazer algum sentido real para o expectador. A história se passa em uma vila na costa da Galícia, na Espanha. Inexplicavelmente, os habitantes estão sofrendo uma espécie de paralisia, mas ainda conseguem ouvir os próprios pensamentos após o desaparecimento de um marinheiro chamado Rubio. Três mulheres, que estranhamente não sofrem da tal paralisia, descem das montanhas em busca do marinheiro perdido.

Com a câmera estática, o Patiño dá preferencia para longas e monótonas cenas que se repetem ao longo do filme. Lua Vermelha conta com poucas frases que partem de pensamentos diversos dos paralisados moradores da cidade, que refletem sobre o desaparecimento de Rubio, um mortal monstro marítimo, a Lua e a própria paralisia. No lugar de diálogos, o filme entrega legendas quase episódicas que nos orientam timidamente sobre a história - timidamente é a definição precisa sobre o enredo do filme.

Foto: Zeitun Films, Amanita Films

Patiño não se incomoda com uma história narrativamente robusta e entrega imagens poéticas que pouco farão diferença se o público não embarcar nessa belíssima viagem visual. É inegável que o diretor tem o olhar apurado para arte e é difícil não se deslumbrar com os planos abertos da pequena vila costeira, os enquadramentos fechados nos rostos dos atores e na certeira disposição da câmera ambientes fechados.

Entretanto, Lua Vermelha é um trabalho desafiador até mesmo para o expectador apaixonado por filmes artisticamente mais aventureiros. Até por isso é difícil dizer exatamente sobre o que o filme quer abordar. É uma história sobre o poder na natureza perante a frágil existência humana? Uma mensagem profética e assustadora sobre o impacto da mudança climática? É complexo definir com clareza qual era o real objetivo narrativo de Patiño. Essa falta de compreensão pode gerar debates entre expectador que encontrará elementos narrativos mais claros, e o público que ficará completamente perdido com a narrativa solta de Lua Vermelha.

MATE-O E SAIA DESTA CIDADE
Mate-o e Saia Desta Cidade [2020] é uma produção extremamente pessoal e emocionalmente densa do polonês Mariusz Wilczyński. Intencionalmente lenta, a animação singular é uma mistura de rabiscos em preto e branco ocasionalmente acentuados por pequenos momentos de cor, que se passa em um universo muito particular: a mente do próprio animador. Nesse ambiente surrealista onde tudo é possível, sonhos se misturam com memórias dolorosas servindo quase como uma atividade terapêutica para o cineasta.

Simplificando significativamente, a animação é ambientada na casa de infância de Wilczyński em Lodz, na Polônia, na década de 1970. Invocando à memória coletiva das crianças que cresceram em países comunistas durante o declínio da União Soviética, cada pequeno espaço da cidade é representado de um jeito absurdo e até ilógico, que tem como propósito dominar os personagens humanos. Esse ambiente opressor torna as pessoas tão focadas em si mesmas que ser hostil sem motivo não é incomum, tornando o filme um tanto inquietante.

Foto: Bombonierka

Mate-o e Saia Desta Cidade esteve em desenvolvimento por 11 anos e parte desse longo processo pode ser visto no filme, especialmente no ritmo que passa de frenético para vagaroso em pouco tempo. É como se alguém escrevesse todos os seus pensamentos, lembranças, arrependimentos e dores em um diário durante mais de uma década e o espectador fosse capaz de ler cada anotação de uma só vez. Por baixo de toda a grossa camada surrealista, conseguimos ver com clareza todos os sentimentos derramados em cada linha desenhada por Wilczyński. Mesmo com toda a estranheza visual e narrativa. Mate-o e Saia Desta Cidade é curiosamente cativante e dolorosamente melancólico.