Crítica: Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou

(A crítica de Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou [2019] foi escrita originalmente para Judão durante minha cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O texto está sendo publicado - com algumas modificações - devido ao lançamento comercial do filme e a escolha como representante brasileiro no Oscar 2021.)

Antes da sessão maravilhosamente cheia na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, encontrei a atriz e diretora Bárbara Paz circulando com enormes óculos escuros no Cinearte. Me bateu vontade de dizer: "ei, estou indo ver seu filme!", mas achei melhor ficar quietinha e ir para a fila. Antes do filme começar, Paz se dirigiu à plateia - visivelmente maravilhada por ver a sala cheia - para dizer que esse era um filme sobre amor. E que amor.

Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou se aprofunda lindamente nos últimos anos de vida de um dos cineastas mais importantes da história, com comentários feitos pelo próprio diretor sobre vida, morte e cinema. Com Héctor Babenco conversando sobre si mesmo, o diretor expressa seus medos mais profundos e se coloca em uma posição única antes de sua morte ao falar sobre memórias pessoais e profissionais, fazendo reflexões sobre a carreira e expondo as próprias fantasias do pré e pós-morte.

Em conjunto, o diretor e Paz decidiram que o filme deveria ser em branco e preto, escolha que colabora para mergulharmos nas memórias de Babenco. O documentário intercala cenas dos filmes do diretor com reflexões muito profundas que nos mostram como ele usou o cinema para expandir a própria vida e se tornar eterno. Segundo o próprio Babenco, ele sobreviveu através cinema.

Foto: HB Filmes

Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou entrega uma edição bastante precisa e lindamente estilizada, usando o cinema do cineasta para nos conduzir por todas as ponderações e compartilhar informações importantes sobre sua vida. Cada filme de Babendo está profundamente ligado à sua história pessoal, quase como um pedaço do próprio cineasta na tela.

Estreando como diretora, Paz tem muita delicadeza em mostrar os momentos mais íntimos de Babenco na luta para se manter saudável. O documentário traz cenas do diretor hospitalizado, lidando com dores, medicações e perda de força física, apesar de ainda mostrar muita lucidez. Essa lucidez ilumina o filme ao compartilhar histórias e reflexões sobre vida, escolhas e pertencimento.

Além de uma celebração merecida à carreira do cineasta, Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou celebra sua vida pelas lentes de alguém que o ama profundamente. Existe uma camada reconhecível de encantamento que é difícil não compartilhar com a diretora e nos faz sofrer novamente pela perda do cineasta.

Esse é um documentário lindíssimo, doce e profundamente triste sobre a perda de um cineasta brilhante e, principalmente, a perda de um grande amor. Esse misto de saudade, amor e admiração pelo homem se enlaça com a admiração pelo cineasta e é difícil delinear onde começa um e termina o outro.

O amor está presente em cada imagem capturada por Paz e, consequentemente, em cada cena dirigida por Babenco introduzida no filme. Profundamente emotivo, Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou oferece momentos delicados que intensificam a profundidade dessa perda - a sequência do grande jantar entre amigos realizado após a morte do diretor, um desejo que ele tinha em vida, é belíssima. Assim como o próprio filme, o jantar é uma celebração à quem ele era e sempre será a partir dos seus filmes. Exatamente como ele sempre quis.

No fim da sessão, Paz estava no canto da sala escura, ouvindo o público bater palmas pela sua realização. Novamente, desejei parar a diretora e dizer: "Ei, vi seu filme! Obrigada por isso."