Crítica: Mank

Quando saiu o trailer de Mank [2020], lembro que alguém me perguntou se precisava assistir Cidadão Kane [1941] para ver o novo filme dirigido por David Fincher. A resposta, caro leitor, é sim. É importante que você conheça a história do filme dirigido por Orson Welles para entender a dinâmica entre as pessoas reais que aparecem nessa história.

Confesso que Mank não é exatamente o que eu esperava. Brincando com o clássico modelo de cinebiografia em determinado momento, o filme não faz uma longa caminhada pela vida do personagem do título ou explora avidamente a polêmica sobre Welles ter  (ou não) qualquer crédito no roteiro de Cidadão Kane - apesar da questão estar presente mais especificamente no final do filme. O foco do roteiro escrito por Jack Fincher, o pai do diretor, está nos motivos que fizeram o escritor Herman J. Mankiewicz escrever um dos filmes mais famosos e referenciados do cinema norte-americano, mas, especialmente, em explorar como a dinâmica de Hollywood presenciada pelo escritor foi essencial para o que se tornaria o filme.

Foto: Netflix


Desde sempre, Hollywood mostrou muita reverência em explorar suas próprias histórias. Cada pequeno momento tem potencial para ganhar sua própria versão cinematográfica e dar mais combustível para o mitológico distrito de Los Angeles. Porém, essas versões sempre carregam uma auto-indulgência apaixonada pelas histórias impressionantes e pessoas - muitas nem tão impressionantes assim - que deixaram marcas na indústria.

Mank também abraça todo o glamour da clássica Hollywood, nos brindando com uma cinematografia que homenageia o período. É fácil ser absorvido pela reconstrução da época e por todas as referências visuais presentes no filme. Entretanto, o filme carrega um conto de advertência sobre o poder da mídia em controlar as massas.

Pulando entre tempos diferentes, cada cena é introduzida com uma nota de roteiro para nos situar sobre onde estamos naquele momento. Além de fornecer estilo para o filme, esse recurso narrativo é valioso para nos orientar nesse trabalho de investigação histórica especulativa - a palavra especulativa é importante aqui - sobre a construção da narrativa do trabalho mais famoso de Mankiewicz.

Assim como Cidadão Kane, o filme é construído com flashbacks, apresentando o tempo presente de 1940, onde o protagonista é levado para um distante rancho onde precisa escrever o roteiro de um filme para o jovem Orson Welles. Acamado após um acidente de carro, Mank (Gary Oldman) trabalha com uma secretária chamada Rita Alexander (Lilly Collins), responsável por digitar o script, e Freda (Monika Gossmann), uma enfermeira que cuida dos seus ferimentos - e fornece bebidas clandestinamente. Ocasionalmente, ele recebe a visita de John Houseman (Sam Troughton), colaborador de Welles, além de telefonemas do próprio cineasta.

Nos primeiros rascunhos da história, Rita percebe que o personagem central da filme é o magnata do ramo de editoras, William Randolph Hearst (Charles Dance). Essa percepção impulsiona os flashbacks ambientados em 1930, período em que Mark trabalhava para Louis B. Mayer (Arliss Howard).

Foto: Netflix

O que alimenta Mank é a vertente política do filme e as manipulações de massa feitas pela mídia - algo que recoloca a história na nossa atual realidade. Durante um banquete promovido por Hearst em 1933, os convidados compartilham suas opiniões sobre a corrida pelo governo da Califórnia, na qual o escritor Upton Sinclair está concorrendo com uma política abertamente socialista. O encontro reúne membros da MGM, especialmente o co-fundador do estúdio  Louis B. Mayer, que fala abertamente sobre todos os horrores do socialismo.

Um ano depois, a MGM, apoiada por Hearst, usa as principais armas do estúdio para produzir uma série de falsos programas de rádio e cinejornais sobre como os americanos perderiam o seu estilo de vida se escolhessem um candidato com ideias tão extremistas. É essa trama que inspira e alimenta a construção de Cidadão Kane.

Mank é um filme tanto sobre o alcance do poder de Hollywood, quanto sobre a visão de Fincher sobre cinema como negócio e arte, e onde ele acredita que cada um pertence. O cineasta não parecia particularmente interessado em filmar momentos onde esses dois elementos não existem. Há uma certa fascinação do diretor e do roteirista em mostrar o caráter de Mankiewicz apesar de todos os seus vícios óbvios. Nem tanto como um conto de ruína pessoal, Mank tem um tom de redenção parcial do escritor que é deixado para os momentos finais do filme. Mesmo assim, o filme não é necessariamente apenas sobre o roteirista, mas sobre a indústria.

Até por falar sobre indústria, Mank tem um roteiro muito denso e tão cheio de informações que será um desafio para o expectador que não conhece vagamente nenhuma das pessoas citadas ou histórias compartilhadas - um particular destaque para Marion Davies de Amanda Seyfried como uma mulher que sabe a posição em que está e aprendeu a conviver com as escolhas que fez. O filme peca em não esticar uns minutinhos para explorar determinados pontos e dar uma base de onde partir com a narrativa.

Porém, para quem conhece histórias e personagens da clássica Hollywood, o roteiro do pai Fincher é um deleite cheio de ironias e mensagens subliminares sobre os players usuais de Hollywood: o apaixonado que vai contra as convenções, o manipulador imoral astuto que sabe usar as ferramentas que tem, o conservador que pensa em apenas manter a maquina funcionando... Não é difícil ver a Hollywood de hoje na Hollywood de ontem, porque as pessoas mudam, mas os papéis não. E David Fincher sabe disso mais do que ninguém.