Afinal, por que a decisão da WarnerMedia causou tanto impacto?

2020 está longe de ser um ano fácil para todos os setores da indústria cinematográfica e, nos últimos meses, os estúdios foram forçados a reavaliar suas prioridades e encontrar formas de sobreviver. Com 2021 quase batendo na porta, a WarnerMedia tomou uma decisão inusitada e polêmica para tentar estancar o sangramento.

Após meses afirmando categoricamente que suas produções cinematográficas estreariam exclusivamente no cinema, o conglomerado anunciou que 17 filmes vão estrear no HBO Max no mesmo dia dos lançamentos teatrais - filmes como Godzilla vs Kong, Space Jam: A New Legacy, Tom & Jerry, Duna, Mortal Kombat, Judas and the Black Messiah, Invocação do Mal 3Em um Bairro de Nova York estão na lista.

A decisão vale para os EUA, único lugar onde streaming está disponível até o momento, e foi recebida com incredulidade por boa parte da indústria. Ninguém esperava que a WarnerMedia mudasse drasticamente o planejamento para 2021, mesmo que o conglomerado já tivesse anunciado que lançaria Mulher-Maravilha 1984 [2020] no HBO Max no Natal.

Segundo uma matéria do Deadline, os analistas financeiros disseram que o filme de Patty Jenkins precisará fazer 40% a mais do que a atual receita global de US$ 357,8 milhões de Tenet para conseguir algum equilíbrio financeiro. No cenário atual, onde cinemas em todo o mundo fecharam, não parece que esse número será alcançado.

A WarnerMedia., dona de um dos estúdios que mais movimenta o mercado e um dos parceiros mais fiéis dos exibidores, optou por priorizar o próprio serviço de streaming visando o mercado dos EUA. Sem qualquer previsão de normalidade no país, a única saída que parece viável em um futuro próximo é levar os filmes para o público via streaming, sem custo adicional para os assinantes. Nesse momento, não existem salas abertas o suficiente para justificar um lançamento exclusivamente nos cinemas.

Foto: WarnerMedia/Legendary


Entretanto, a WarnerMedia não está desistindo completamente dos cinemas  (pelo menos por enquanto). O plano para todas as 17 produções segue o exemplo de Mulher-Maravilha 1984: manter o filme no catálogo do HBO Max por 30 dias, depois retirá-lo e deixá-lo apenas nos cinemas por um mês até a disponibilidade para aluguel e compra no VOD.

Apesar dos cinemas não terem sido excluídos do futuro imediato do conglomerado, muitos especialistas acreditam que essa mudança sinaliza um passo em direção ao streaming como prioridade. A pandemia ensinou aos estúdios tradicionais que os serviços de streaming podem ser mais que apenas um imenso catálogo, mas estúdios como Disney e Universal ainda pretendem lançar filmes exclusivamente nos cinemas antes de levá-los para outras plataformas. Já a WarnerMedia entende que essa enxurrada de filmes inéditos poderá atrair novos assinantes, impulsionando o serviço e gerando algum retorno financeiro muito necessário.

Mas enquanto a escolha pode atrair novos consumidores para o HBO Max, ela também cria problemas contratuais com membros das produções e co-financiadores. Em uma postagem no Twitter, o jornalista Aaron Couch contou que a Legendary Entertainment, co-produtora de Godzilla vs Kong e Duna, não foi abordada sobre a decisão do estúdio. Mike Fleming Jr. e Peter Bart compartilharam informações mais detalhadas sobre essa questão em uma coluna para o Deadline.

A dupla ouviu de fontes que a Legendary enviará cartas legais para a Warner Bros, contestando a decisão de lançar Duna no HBO Max. O texto diz que Godzilla vs Kong também poderia ser mencionado, um filme que ganhou destaque na mídia nas últimas semanas porque a Legendary teria, supostamente, uma proposta da Netflix de US$ 250 milhões pela produção. Após o sucesso de Enola Holmes [2019], não é difícil imaginar que essa proposta tenha existido.

Nos dois casos, a Legendary teria motivos para protestar contra a decisão da WarnerMedia, uma vez que eles e seus parceiros supostamente bancaram 75% do orçamento líquido de Duna. Porém, o problema não está apenas com um co-financiador, mas com atores e cineastas que venderam projetos com a promessa de lançamento nos cinemas, especialmente com compromissos contratuais de back-end - uma porcentagem de bilheteria prometida para os principais atores e cineastas de Hollywood depois que o estúdio recupera os custos de produção.

Em uma matéria publicada pelo The New York Times, os jornalistas Brooks Barnes e Nicole Sperling contaram que, para evitar que a notícia sobre os 17 filmes vazasse, a WarnerMedia não informou as principais agências e empresas de gerenciamento de talentos até cerca de 90 minutos antes de emitir o comunicado para a imprensa - e poucos executivos da Warner Bros. foram avisados sobre a mudança.

Sem bilheterias, como a WarnerMedia dividiria o faturamento das produções com co-financiadores e as partes prometidas em contrato? Uma opção seria pagar alguma quantia para cada um deles para que ninguém saísse no prejuízo. Esse foi o caminho escolhido para convencer todos os envolvidos em Mulher-Maravilha 1984 a concordar com o lançamento duplo do filme, além de Convenção das Bruxas [2020], que foi lançamento nos cinemas em mercados internacionais, mas estreou apenas no streaming nos EUA. Se pensarmos em todas as produções da Warner que entraram na atual política de lançamento, dificilmente todos vão conseguir as mesmas condições.

Quando a Amazon Studios ou a Netflix compram produções de outros estúdios que originalmente estreariam nos cinemas, esses acordos cobrem todos os detalhes dos contratos de cineastas e estrelas. Eles podem não receber o retorno financeiro em bilheteria, mas são pagos pelo contrato que fizeram. No caso da WarnerMedia lançando os próprios filmes no streaming, a questão difere e o conglomerado poderia comprar os filmes dos co-financiadores.

Dificilmente a WarnerMedia dividirá qualquer parte do retorno financeiro com novos assinantes, mas a bilheteria internacional deve colaborar - o que não significa grandes ganhos, já que cinemas em mercados como Itália e Alemanha estão fechados e não devem abrir até 2021. Compartilhar salas escuras com estranhos não parece ser o lugar favorito do público nesse momento.

Enquanto Hollywood senta para resolver seus novos problemas, os cinemas se afundam em buracos cada vez mais fundos e deixam o futuro ainda mais nebuloso para o setor. A pandemia acelerou e escancarou uma realidade muito difícil para os exibidores, um setor que já sofria antes de 2020.  As dívidas já enormes das grandes redes estão pioraram com a pandemia, além de pequenos cinemas sofrerem com a falta de apoio governamental. É muito difícil a indústria cinematográfica não se reerguer no futuro, mas os escombros deixados serão irrecuperáveis.