Crítica: A Voz Suprema do Blues

Inegavelmente, existem desafios claros no processo de adaptação de histórias escritas em livros e peças para o cinema. Nem tudo que funciona em um livro funciona exatamente da mesma forma em tela. O mesmo acontece com adaptações de peças teatrais, especialmente porque existe uma dinâmica mais intimista no palco que envolve a reação imediata do público.

A Voz Suprema do Blues [2020] nasceu de uma peça escrita pelo dramaturgo August Wilson em 1982, o mesmo autor de Fences [1985], outra peça já adaptada para os cinemas e também protagonizada por Viola Davis. Além desse trabalho, Davis tem um conhecimento profundo da obra de Wilson, tendo atuado nas peças da Broadway Seven Guitars e King Hedley II escritas pelo dramaturgo.

Como uma peça restrita a um palco, A Voz Suprema do Blues também restringe seus cenários, mas expande o leque de possibilidades visuais com um design de produção impecável e imersivo. Obviamente, não assisti a peça de Wilson e sabia muito pouco sobre a história de Ma Rainey antes de sentar para assistir ao filme. Para minha surpresa, não fiz grandes descobertas sobre a história pessoal da cantora, porque a trama não é sobre ela.

Escrito por Ruben Santiago-Hudson, A Voz Suprema do Blues se passa em 1927, na cidade de Chicago. A trama segue uma sessão de gravação da cantora de blues de sucesso Ma Rainey (Davis), enquanto ela lida com os desejos do seu empresário branco, a pressão da gravadora dominada por homens brancos e a própria banda formada por homens negros de diferentes idades e fases da vida.

Bem sucedida em seu meio, Ma Rainey domina os ambientes por onde anda e consegue se impor mais do que qualquer outra pessoa, especialmente uma mulher negra do período. A cantora entende completamente os motivos para seus desejos serem rapidamente atendidos por todos e ela sabiamente usa isso como vantagem, mesmo que perceba que está perdendo prestígio.

Seu contraponto é Levee (Chadwick Boseman), um jovem trompetista ousado, presunçoso e talentoso que confia completamente na própria capacidade para impor sua visão. Porém, diferente da bagagem de estrada de Ma Rainey, Levee está longe de estar na mesma posição.

Levee e Ma Rainey não são exatamente diferentes, eles estão apenas em lados opostos da carreira e da vida. Enquanto o status da cantora ainda permite que ela consiga um pouco de poder no estúdio, Levee procura respeito e oportunidade em uma promessa vazia que poderia mudar sua vida.

Foto: Netflix

Levee deseja ser o líder de sua própria banda e compor canções mais próximas do público urbano que se identifica, seguindo um caminho diferente do que Ma Rainey faz. Porém, Levee lida com uma pesada bagagem da violência racial que sofreu - e ainda sofre - que mudou sua vida para sempre. Essa violência física e psicológica o marcou e moldou a forma como ele encara a vida.

O diretor George C. Wolfe sabia exatamente o elenco poderoso que tinha em mãos e deixou sua câmera a mais minimalista possível, permitindo que as atuações de Davis e Chadwick Boseman brilhem. Wolfe dá o palco inteiro para seus atores contarem essa história de forma poderosa e hipnotizante.

Boseman é especialmente eletrizante e sua atuação é uma montanha-russa de emoções conflituosas. Existe uma ânsia em Levee que é incontrolável por ser urgente, algo que o ator soube tirar de letra. Sua provável vitória como Melhor Ator no Oscar 2021 será muito merecida e um adeus agridoce para um ator que estava apenas começando.

Com um texto carregado, A Voz Suprema do Blues não compartilha profundamente a história de Ma Rainey, mas escolhe um capítulo específico de sua vida para trilhar um caminho muito mais poderoso ao apresentar histórias da cultura afro-americano e compartilhar relatos da violência racial sofrida por Levee e muitos outros. Todos são exemplos de pessoas que lutam contra a natureza restritiva de suas vidas e dão uma dolorosa profundidade para uma história recheada de blues.