Crítica: Druk - Mais Uma Rodada

Co-criador do Dogma 95, a indicação do cineasta Thomas Vinterberg na categoria Melhor Direção no Oscar 2021 foi uma grande surpresa. Enquanto muitos - como eu - apostavam em outros nomes, o diretor dinamarquês ganhou destaque internacional por seu trabalho em Druk - Mais Uma Rodada [2019], um filme que conta uma história que esquenta em banho-maria, quase como um desastre de trem prestes a acontecer.

A trama segue Martin (Mads Mikkelsen), um homem dinamarquês que vive uma vida tediosa no seu emprego de professor de história do ensino médio. Sua falta de interesse e motivação gera uma intervenção de alunos e pais, que questionam seus métodos de ensino. Essa falta de ânimo constante - possivelmente uma depressão não diagnosticada - também afeta seu casamento e todas as suas outras relações.

Até que, durante um jantar de aniversário do amigo e colega de trabalho Nikolaj (Magnus Millang), Martin confessa para ele e seus amigos Tommy (Thomas Bo Larsen) e Peter (Lars Ranthe) que está se sentindo desligado da vida. A partir desse desabafo, Nikolaj compartilha uma pesquisa que poderia ajudá-los.

Segundo ele, o psiquiatra norueguês Finn Skårderud tem uma teoria de que os humanos nascem com um deficit de 0,05% de álcool no sangue. Em tese, essa pequena quantidade de álcool permite que o estado levemente alterado torne a pessoa mais confiante e espirituosa, como uma versão melhor de si mesma. Procurando formas de sair do limbo que tornou sua vida, Martin aceita participar de um experimento com os três amigos e manter o nível de álcool no sangue em 0,05% durante o horário comercial - mas nunca nos fins de semana.

Não demora para cada um sentir mudanças significativas em suas vidas profissionais e pessoais. Pela primeira vez em anos, Martin permite que suas emoções transbordem e se mostra mais aberto à vida, buscando compensar a ausência de felicidade que sentiu por muito tempo.Vinterberg se aprofunda na trama de Martin, mas também explora as ações de Nikolaj, Tommy e Peter e as ramificações de suas escolhas. 

Foto: Vitrine Filmes, Synapse Distribution

O comportamento dos protagonistas é contextualizado dentro de uma cultura de consumo frequente e pesado de álcool e evoca nossas próprias experiências. Na abertura do filme, vemos o que parece ser uma corrida anual de estudantes circulando um lago, enquanto cada grupo carrega uma caixa de cerveja e bebem juntos. Essa normalização do consumo em tela é impactante, mas, ao mesmo tempo, familiar.

No meio de um festival de bebedeiras, Druk - Mais Uma Rodada examina nossos comportamentos em circunstâncias extraordinárias que nos permite fazer coisas que não conseguimos nem explicar para nós mesmos porque estamos fazendo. Martin e sua trupe desejam compensar anos de falhas, mas se negam a analisar profundamente seus problemas para enfrentá-los.

Druk - Mais Uma Rodada conta uma história facilmente reconhecível sobre pessoas que buscam uma alternativa para disfarçar a dor que sentem. Entretanto, Vinterberg não consegue se decidir entre trilhar o caminho das lições morais sobre como o vício pode nos corroer ou contar uma história satírica sobre o consumo desenfreado de álcool.

O filme permanece em um meio-termo estranho entre definir se está condenando a sociedade dinamarquesa - "o país inteiro bebe como maníacos, de qualquer maneira", diz Anika, esposa de Martin, ao compreender o momento que ele se excede no consumo - ou está mostrando os pontos positivos de viver o que parece ser uma vida mais leve em cenas de bebedeiras eufóricas.

Essa indefinição dá ao filme um tom confuso que atrapalha muito qualquer mensagem que ele queira passar. Mesmo sem fazer um conto de advertência sobre os perigos do excesso de álcool, a história ainda apresenta uma reviravolta sombria e punitiva que sobrepõe os momentos mais leves e divertidos.

A mensagem se torna ainda mais confusa na sequência final protagonizada por Mikkelsen, o verdadeiro farol do filme. Inegavelmente, a agridoce cena é belíssima e a única que permaneceu viva na minha cabeça por mostrar um homem que é como a figura de uma estátua esculpida em rocha se tornar alguém tão cheio de vida por alguns minutos. Uma pena que Druk - Mais Uma Rodada não soube equilibrar suas temáticas sem se intoxicar completamente.