Durante oito semanas, acompanhamos religiosamente cada episódio inédito de WandaVision [2021], uma série muito alimentada pelo hype da internet e a cobertura da mídia sobre as teorias envolvendo os mistérios da trama. Várias dessas teorias eram baseadas em histórias que existem nos quadrinhos, mas todas foram fundamentadas principalmente em expectativas. É difícil encontrar quem não tinha os próprios palpites sobre a série.

WandaVision começou com uma trama misteriosa sustentada pelo próprio universo apresentado nos materiais de divulgação e nas perguntas pertinentes após os acontecimentos de Vingadores: Ultimato. Afinal, se Visão estava morto, como ele poderia estar ali? O que aconteceu entre os momentos finais do último filme e a nova realidade de Wanda? Crianças? Que crianças?

Após anos consumindo filmes do MCU por trabalho - e diversão -, estava saturada da fórmula do estúdio e esperava um chacoalhão narrativo que fosse capaz de expandir as histórias para outros novos territórios. Estava na hora da tal fórmula de sucesso da Marvel Studios começar a explorar gêneros e brincar com outras possibilidades narrativas.

Essa exploração veio em WandaVision, a primeira série feita pela Marvel Studios e o pontapé inicial para o casamento entre cinema e streaming. Claramente experimentais, os primeiros episódios abraçam uma narrativa misteriosa que me intrigou e envolveu na série mais do que esperava.

Porém, no meio da temporada, parece que os roteiristas lembraram que WandaVision era um material para o MCU e começaram a explicar absolutamente tudo, não dando espaço para o espectador deduzir nada. E, pior que isso, as explicações são rasas perto do potencial que a série apresentou no início.

WandaVision entrega uma trama simplista sobre nossa capacidade de lidar com o luto, especialmente quando estamos completamente sozinhos. Com um longo histórico de perdas desde muito nova, Wanda (Elizabeth Olsen) usa involuntariamente os próprios poderes para criar uma realidade onde vive uma vida perfeita com o amor que perdeu tragicamente. Nesse ambiente, não existe solidão, luto e saudade. Mesmo os pequenos problemas diários que surgem, como a necessidade de organizar rapidamente um jantar com convidados, são solucionáveis sem grandes complicações.

Foto: Disney+


Exatamente como um sitcom tradicional, WandaVision também entrega soluções fáceis para os problemas que a série cria ao longo do caminho. Um exemplo perfeito disso é a forma como os vilões são impedidos sem grandes dificuldades - especialmente o diretor Tyler Hayward (Josh Stamberg). Apontada como a grande vilã da temporada, Agatha (Kathryn Hahn) também é previsivelmente derrotada em uma sequência que resulta em mostrar que Wanda é capaz de demonstrar compaixão mesmo após causar tantos problemas.

No cerne de WandaVision estão os elementos emotivos dessa história e são eles que geram empatia automática pelos personagens. Wanda libera os moradores de Westview de seu domínio, mas sacrifica a própria família para fazer a coisa certa. Essa é uma moral da história clássica de tramas onde os protagonistas são os "vilões" das próprias narrativas.

São esses componentes emotivos que evocam sentimentos universais e tornam a história facilmente relacionável para o público e até para os personagens. É a partir do luto compartilhado que Monica (Teyonah Parris) entende que Wanda está sofrendo e precisa de ajuda, vendo que seu descontrole é motivado pela dor.

Desde os acontecimentos de Guerra Infinita e Ultimato, o luto se tornou um sentimento universal no MCU e torcia para o assunto ser explorado com mais profundidade em WandaVision. Afinal, a morte faz parte da vida mesmo em um filme sobre super-heróis. Entretanto, a forma como a série aborda a temática é praticamente uma versão resumida das fases do luto.

Diferente das boas sacadas cômicas, existem problemas pontuais no roteiro de WandaVision no desenvolvimento dos momentos mais dramáticos da série. A percepção é que sempre faltam mais linhas no roteiro para a história se aprofundar na solidão enraizada em Wanda e na importância de ter Visão (Paul Bettany) ao seu lado, mesmo que seja apenas uma versão dele - o amor está longe de ser um sentimento racional.

No entanto, não é difícil se relacionar com a saudade de Wanda, porque qualquer pessoa que já superou - ou ainda supera - uma perda, desejaria ser capaz de trazer quem ama de volta de alguma forma. É esse envolvimento pessoal que torna a série impactante para boa parte do público, porque as consequências das ações de Wanda são mostradas apenas nas suas perdas.

WandaVision apresenta uma história localizada sobre a protagonista e os personagens que aparecem na série, mas o enredo não oferece grandes repercussões dos acontecimentos, algo que deve ter decepcionado muitos espectadores. A série oferece apenas uma pequena provocação ao mostrar Wanda estudando o significado sobre quem é - e, talvez, procurando formas de encontrar seus filhos perdidos. A partir disso, sobram apenas especulações sobre o futuro baseado nos quadrinhos ou teorias mirabolantes inspiradas em sussurros que surgem na internet, exatamente como aconteceu no decorrer da temporada. É um ciclo sem fim.

Porém, apesar de todos os questionamentos, ainda me diverti vendo WandaVision. A série me cativou verdadeiramente e investi meu tempo pensando em 6 milhões de teorias furadas sobre quem poderia estar envolvido na história ou se teria um grande personagem desconhecido revelado no final. A caminhada foi boa, a chegada nem tanto.