Crítica: Fuga

Fuga está sendo exibido na sessão de abertura do É Tudo Verdade - 26ª edição do Festival de Documentários.

Poucos sentimentos são tão dolorosos como a necessidade de abandonar o único lugar que reconhecemos como nosso lar e recomeçar a vida na solidão. Esse é o conflito abordado na animação documental Fuga [2021], dirigida pelo cineasta dinamarquês Jonas Poher Rasmussen.

Com produção executiva de Riz Ahmed e Nikolaj Coster-Waldau, Fuga é estruturado quase como uma sessão de terapia entre Rasmussen e um antigo amigo apelidado de Amin Nawabi - seu nome real foi ocultado para preservar sua identidade. Próximos há anos, Amin compartilhou muito pouco sobre a própria história com amigos e até mesmo com o noivo Kasper, com quem mora na Dinamarca. Deitado de olhos fechados, ele conta sua verdadeira história e relembra sua infância em Cabul, Afeganistão, durante a década de 1980, antes que a guerra civil e os  mujahideen, apoiados belicamente pelo governo norte-americano, forçassem sua família a fugir do país.

Fuga é um dos melhores filmes que já vi sobre a crise humanitária mais urgente da nossa geração. Depois de anos escondendo a própria história por medo, Amin gradualmente recorda eventos que mudaram sua vida e a forma como ele se relaciona com as pessoas. Como criar vínculos quando você é obrigado a cortar todos os laços com a única vida que conheceu?

Sua luta em contar sua história é visível desde o momento que ele aparece pela primeira vez, algo compreensível a medida que Amin revela sua saga pela sobrevivência. Ainda na infância em Cabul, sua família lidava com constantes ameaças das autoridades locais, até que seu pai desapareceu após ser levado quando os Mujahideen assumiram o poder.

Foto: É Tudo Verdade/Divulgação

Desesperados, a família decide abandonar o Afeganistão e se exilar em Moscou, que enfrenta uma profunda crise econômica e social após a queda da União Soviética. Fugindo de policiais corruptos e enfrentando constante instabilidade por falta de documentos de imigração, a família de Amin conta com a ajuda do seu irmão mais velho que mora na Suíça para enviar dinheiro e juntar recursos para pagar a viagem de quatro pessoas até a Suíça.

Em meio a tudo isso, Fuga entrega uma história encantadora sobre a busca de Amin por entender quem é, enquanto esconde a atração por figuras masculinas de filmes de faroeste e uma paixão por Jean Claude Van Damme.

Fuga intercala entre o passado e o presente para Amin refletir sobre o futuro que quer ter. Vemos vislumbres da vida com seu namorado Kasper, que aguarda o momento certo para encontrar um lar para ambos. Quando Amin se sente seguro o suficiente para contar como foi parar na Dinamarca, Rasmussen - e o espectador - se choca com os detalhes da sua jornada até então desconhecida por todos.

A forma envolvente como Amin conta sua história é complementada por uma animação simples, mas estonteante que aproveita a flexibilidade que apenas o formato permite para preencher lacunas e dar o tom correto para cada momento. Dois momentos em especial são particularmente marcantes por despertarem sentimentos destoantes.

No primeiro, o filme retrata uma angustiante tentativa de Amin e sua família de fugirem da Rússia pagando um traficante de pessoas para tirá-los do país em um navio precário lotado de pessoas. Com a descrição viva e angustiante de Amin, as imagens ecoam seu profundo medo de precisar escolher entre salvar a mãe ou o irmão se algo acontecesse mesmo que não soubesse nadar.

Em outro momento, Amin tem sua primeira experiência em uma boate LGBTQ+ após ser abraçado por seu irmão mais velho e receber o gesto de aceitação de sua família. A sequência que começa tensa termina com o sorriso de Amin compartilhando que não voltou para casa naquele dia.

Fuga não romantiza a constante saga do protagonista para se sentir física e emocionalmente seguro, preferindo mostrar como essa busca influenciou em todas as suas escolhas e relações. É doloroso como sua história ressoa por se assemelhar a muitas outras que se acumulam diariamente. Sabendo disso, Rasmussen entrega um arco de afirmação da vida e nos dá esperança, tornando a história mais solar do que poderia ser e um conto de empatia profundamente doloroso.