I Comete - Um Verão em Córsega e Coisas Verdadeiras fazem parte da seleção de filmes da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 21 de outubro a 3 de novembro de 2021. 

I Comete - Um Verão em Córsega
Elenco: Jean-Christophe Folly, Pascal Tagnati, Cédric Appietto, Apollonia Bronchain Orsoni, Jérémy Alberti, Davia Benedetti
Direção: Pascal Tagnati
País: França

Foto: Pascal Tagnati


Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Roterdã, I Comete - Um Verão em Córsega segue a pacata vida da pequena e pitoresca comuna de Tolla na Córsega, uma ilha montanhosa do Mediterrâneo administrada pela França. Na trama estranhamente dispersa, acompanhamos um grupo de jovens que se dividem entre morar na ilha e visitá-la no verão.

Em sua estreia como diretor, o ator francês Pascal Tagnati nos apresenta pessoas que convivem e lidam com um conjunto de diferentes questões, que podem ou não ter conexão entre si. Continuamente, o jovem diretor empilha cenas do cotidiano que não contribuem necessariamente para um enredo coerente e linear. Vemos um jovem lidando com um relacionamento ruim, outro se preparando para mudar para o continente, um homem mais velho enfrentando burocracias para ter uma criação de ovelhas, entre muitas outras cenas com a mesma característica casual.

I Comete - Um Verão em Córsega é avulso demais para prender a atenção de quem espera uma história direta sobre os personagens ou sobre o lugar, que ganha um espaço significativo no filme. Tagnati enquadra cada cena com uma câmera fixa, nos colocando na posição de observar pacientemente as interações entre os personagens e as belas paisagens da comuna.

Entretanto, tornar o filme pequenos esquetes da vida cotidiana não oferece nenhuma profundidade narrativa, especialmente quando, propositalmente, a história dos personagens avança longe das câmeras. No meio do filme, me senti como uma pessoa que recebe apenas pequenas informações de uma fofoca que nunca chega completa. É particularmente cansativo precisar juntar pequenos fragmentos de informações para descobrir o contexto completo dos conflitos em andamento.

Sem criar nenhuma ligação, foi difícil me importar com a trama, mesmo que o filme esteja carregado de conversas casuais sobre temas reconhecíveis — tive uma pequena síncope quando um personagem diz, durante uma discussão sobre futebol, que o PSG "limpou o rabo com o fair play financeiro". Porém, se você busca aleatoriedade com toques de reconhecimento, talvez o filme funcione para você.


Coisas Verdadeiras (True Things) | 2021
Elenco: Ruth Wilson, Tom Burke, Hayley Squires
Direção: Harry Wootliff
País: Reino Unido

Foto: Harry Wootliff

Cada geração tem suas próprias histórias sobre desligamento afetivo e solidão, com algumas funcionando melhor que outras. Esse não é o caso de Coisas Verdadeiras, novo filme de Harry Wootliff.

Baseado no livro True Things About Me, escrito por Deborah Kay Davies, a história segue Kate (Ruth Wilson), uma jovem mulher que vive uma vida bastante monótona em Ramsgate, uma pequena cidade costeira no condado de Kent, na Inglaterra. Um dia, Kate atende no trabalho Blond (Tom Burke), um homem recém-saído da prisão que rapidamente a seduz para uma rapidinha em um estacionamento, horas após se conhecerem.

Entediada com a vida, Kate se torna obcecada pela emoção que os encontros com Blond proporcionam, especialmente por sentir um óbvio deslocamento social que a afasta da família e amigos. Rapidamente, ela perde todo o pouco interesse que ainda tinha pela vida cotidiana, permitindo que sua vida seja pautada por essa relação inebriante.

Unido à isso, a visão da vida perfeita recheada de companhia e diversão compartilhada por terceiros nas redes sociais também afeta como a personagem encara o cotidiano enfadonho. Kate está presa na mesma rotina que odeia, mas não faz nenhum movimento real para buscar outras alternativas.

Todos esses elementos de Kate são bastante claros, mas a narrativa dificilmente se aprofunda nas inquietações da protagonista, a tornando uma rasa representação de uma geração descontente e deslocada. Wootliff fez um filme que tenta dizer muito, mas não consegue colocar em prática todas as ideias que arranha, sobretudo o relacionamento de Kate e Blond.

Coisas Verdadeiras conta uma história que fala mais sobre impulsividade do que toxicidade entre duas pessoas que não deveriam estar juntas, porque não tem maturidade emocional para se relacionarem. Kate e Blond são péssimos juntos, porque são — em uma análise simples — péssimos sozinhos. O filme não desenvolve a narrativa o suficiente para entendermos quem eles são e qual a profundidade dessa (não) relação, apesar dos esforços de Wilson e Burke de tentar nos convencer que existe algo ali.

Retratando a história pela visão de uma mulher, a câmera masculina contamina até a busca sexual de Kate. Um olhar feminino poderia encontrar propósito nas questões existenciais de Kate e na obsessão pelo caso — a abordagem sobre mulheres sexualmente insatisfeitas gostarem de "bad boys" é misógina e retrógrada demais para meu gosto.