Lidando com a Morte faz parte da seleção de filmes da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 21 de outubro a 3 de novembro de 2021.

Lidando com a Morte (Dealing with Death) | 2020
Direção: Paul Sin Nam Rigter
País: Holanda

Foto: Paul Sin Nam Rigter

Vencedor do prêmio de melhor documentário holandês no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, Lidando com a Morte acompanha Anita, uma mulher que gerencia uma agência funerária em Bjilmar, o multiétnico bairro de Amsterdã. Com culturas muito distintas convivendo juntas, Anita tem o ambicioso projeto de oferecer para todos os grupos espaço e ferramentas para as cerimônias fúnebres religiosas. No entanto, a tarefa não é fácil e, quanto mais se aprofunda nesses universos, mais ela percebe quão pouco sabe sobre as culturas locais.

Às vezes triste, inquietante e inesperadamente divertido, Lidando com a Morte mostra as diferentes facetas de como encaramos o inevitável. Durante todo o processo de descoberta de Anita em meio às inúmeras reuniões e encontros com diferentes grupos, o documentarista Paul Sin Nam Rigter registra o olhar entusiasmado de uma mulher branca em um mundo completamente diferente do seu.

Anita se esforça para que todos se sintam bem-vindos, seja escrevendo recados no maior número de idiomas possível, praticando um funeral com um grupo de hindus ou ouvindo com seriedade quando ganeses solicitam banheiros maiores nas instalações — as volumosas vestimentas dificultam a entrada em cubículos.

Os anos de preparação para a nova instalação da funerária — em um espaço cedido pelo governo — culminam na morte do pai de Anita. Ainda em vida, a vemos preparando o funeral do pai com antecedência prática, o que pode causar estranheza. Porém, fica bastante claro que Anita vê no ritual funerário uma forma de amor, um último momento para respeitar as vontades de quem se vai. Não é apenas sobre se despedir, mas sobre celebrar a vida. Ela trata a morte como ritualística, mas também com uma naturalidade surpreendente.

Nesse momento, Rigter também aproveita para reforçar diferenças culturais óbvias entre os ritos holandeses e ganeses. Enquanto um é mais introspectivo e silencioso, o outro é emocionalmente aberto, falado e cantado. Um não é melhor que o outro, eles são apenas diferentes.

Esse momento não ficou restrito apenas aos dois funerais. Rigter intercala o trabalho de Anita com cenas extremamente íntimas de funerais de outras pessoas. Cerca de metade do filme consiste nesses momentos, onde ele se mistura com os enlutados e os mostra com uma proximidade inquietante.

Entretanto, à medida que a gerente se relaciona com os grupos, ela começa a questionar o que exatamente a funerária está fazendo por eles, especialmente porque todos estão indo muito bem sem a ajuda da agência. Todo o árduo trabalho realmente atende às necessidades do bairro ou apenas é um empreendimento que deseja conquistar espaço nesse mercado?

Não é surpreendente que a maior mesquita da região não esteja interessada em utilizar as futuras instalações da funerária. Organizados por conta própria, eles informam para Anita em uma reunião um pouco tensa que a região é predominantemente católica e pouco ofereceu para os islâmicos até então — uma funerária não mudaria essa complicada relação. Em outro momento, ela ouve que essas pessoas não precisam de funerárias, mas de ambientes para convivência social e educacional. Depois que o filme termina, essa frase reverbera e é inevitável não questionar os motivos de algumas culturas serem valorizadas apenas na morte.