Lua Azul e Sanguessugas - Uma Comédia Marxista sobre Vampiros fazem parte da seleção de filmes da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 21 de outubro a 3 de novembro de 2021.

Lua Azul (Crai Nou)
Elenco: Ioana Chitu, Mircea Postelnicu, Mircea Silaghi, Vlad Ivanov, Emil Mandanac
Direção: Alina Grigore
País: Romênia

Foto: Alina Grigore


Dirigido por Alina Grigore, Lua Azul segue a jornada de Irina, uma jovem que mora e trabalha na fazenda de sua família em uma região montanhosa da Romênia. Cansada dos dramas familiares recorrentes, Irina luta para conseguir cursar faculdade em Bucareste e se livrar de vez dos familiares abusivos. Após uma experiência sexual duvidosamente consensual, a jovem é levada a combater a persistente violência familiar.

Através dos olhos de Irina, Grigore nos conduz pela dinâmica familiar romena em temáticas como educação e igualdade de gênero, mas se perde nas ideias que propõe pelo excesso de elementos dramáticos desconexos. Vencedor no Festival de San Sebástian, Lua Azul acompanha essa jovem completamente deslocada que tenta encontrar formas de se distanciar dos violentos e psicologicamente abusivos homens da família.

Entretanto, a busca de Irina por sua liberdade se torna quase uma subtrama no meio de tantos enredos acontecendo simultaneamente — a relação da irmã com o pai e a tentativa de gravidez de uma personagem secundária são apenas alguns exemplos do excesso de narrativas. O filme concentra a vontade de Irina ir embora em Liviu, um primo explosivo que se descontrola com facilidade quando é contrariado. Porém, a relação entre os dois não é explorada além do comportamento de Liviu e o roteiro apenas dá a entender que existe um passado complicado entre a dupla.

A falta de profundidade narrativa da protagonista afeta como nos importamos com ela, já que sabemos pouquíssimo sobre quem Irina realmente é e seu final parece incoerente perto da proposta da diretora. É uma pena que o filme apenas arranha como a personagem parece carregar algumas das características comportamentais dos familiares que tanto abomina.

Sanguessugas - Uma Comédia Marxista sobre Vampiros (Bloodsucker) | 2021
Elenco: Alexander Koberidze, Lilith Stangenberg, Alex Herbst, Corinna Harfouch, Andreas Döhler
Direção: Julian Radlmaier
País: Alemanha

Foto: Julian Radlmanier

Segundo longa do cineasta alemão Julian Radlmanier, Sanguessugas - Uma Comédia Marxista sobre Vampiros supostamente — palavra importante aqui — se passa no verão de 1928 sendo focado em Lyovischka, um operário e inesperadamente ator que foge da União Soviética em uma tentativa desesperada de se tornar uma estrela de cinema em Hollywood. Porém, esse é um resumo bastante sucinto da quantidade de informações e eventos presentes no filme.

Na primeira parte da história, descobrimos que Lyovischka foi para o exílio após ser escalado para o papel de Trotsky no filme Outubro [1927], dirigido por Sergei Eisenstein. Seu sonho de se tornar uma estrela acaba quando o jovem ator é cortado do filme, após o verdadeiro Trotsky cair em desgraça com Stalin. Durante a fuga, ele acaba encontrando um resort alemão e cria a falsa identidade do barão Koberski. A partir daí, é uma confusão de conversas com uma milionária chamada Octavia Flambow-Jansen e seu assistente Jakob, além dos trabalhadores e fazendeiros da região que buscam respostas sobre estranhos ataques de vampiros.

Radlmanier divide Sanguessugas - Uma Comédia Marxista sobre Vampiros em uma estrutura de três partes que foca em diferentes percepções dos personagens, mas pouco ajuda para realmente organizar a narrativa confusa. Apesar das boas sacadas — destaque para a sequência do personagem chinês vendendo pomadas —, o filme mostra como é difícil criar uma sátira eficaz capaz de desconstruir um material difundido e pouco aproveita as incoerências temporais presentes no filme.

Rapidamente, o diretor gasta todo o potencial do filme em uma história longa e sem humor que não consegue definir exatamente quem e o que é piada — as dualidades comunista/capitalista e vampiro/vítima simplesmente desdenha de todos os lados sem nenhum foco. Nos momentos óbvios de comédia, o roteiro perde o timing e a única questão presente ao longo do filme que permanece na memória após a exibição é: para quem exatamente este filme foi feito? Talvez nem Radlmanier tenha a resposta exata para essa pergunta.