Madeira e Água e No Táxi do Jack fazem parte da seleção de filmes da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 21 de outubro a 3 de novembro de 2021.

Madeira e Água (Wood and Water)  | 2021

Elenco: Anke Bak, Ricky Yeung, Alexandra Batten, Patrick Lo, Theresa Bak
Direção: Jonas Bak
Países: Alemanha, França, Hong Kong

Foto: Jonas Bak
Foto: Jonas Bak
 
Após criar três filhos e ser uma dona de casa por anos, Anke é uma mulher idosa que conhece muito pouco do mundo além da sua própria perspectiva. Aposentada do trabalho em uma igreja, ela passa férias com as duas filhas na casa onde morou com as crianças e o falecido marido, um lugar que representa tempos particularmente felizes de união familiar. Em um clima nostálgico, a pequena família compartilha recordações e timidamente repara em todas as mudanças do lugar depois tantos anos.

Porém, o clima de saudade não está apenas nas memórias, mas também na ausência de Max, o único filho de Anke que não foi capaz de estar presente. Morando há anos em Hong Kong, ele ficou preso na região devido aos protestos civis contra as autoritárias políticas do governo chinês. Entretanto, a ausência de Max é sentida há muito tempo e Anke — talvez pressentido algo — decide se reunir com o filho após anos de afastamento.

Dirigido por Jonas Bak, o primeiro longa-metragem do diretor alemão é estrelado pela mãe do cineasta, que também leva o nome da protagonista. Madeira e Água é um filme sobre desconexão, alienação social, transformação emocional e o sentido de casa, então ter a própria mãe como atriz principal torna o filme incrivelmente íntimo. Sozinha, Anke experimenta o mundo em seus próprios termos pela primeira vez e, aos poucos, descobre que outras pessoas também compartilham da mesma saudade familiar e solidão.

Fugindo das narrativas edificantes sobre personagens que se resolvem emocionalmente em viagens espiritualmente engrandecedoras, Bak não se preocupa com criar linha de chegada para as questões que aborda. O diretor não está focado no que vem depois do encontro de Anke com Max, mas em observar essa mulher vendo um mundo novo com olhos de alguém experiente.
 
Anke não se apaixona pela brilhosas luzes da cidade ou pela exploração de uma nova cultura. Seu foco está em pacientemente aguardar o retorno do filho, enquanto descobri que eles compartilham dos mesmos sentimentos de isolamento. Com um ritmo lento, Madeira e Água é um filme bonito que deve ser apreciado com a calma que reflete sua história.
 
No Táxi do Jack (Jack's Ride) | 2021 

Elenco: Armindo Martins Rato, Maria Carvalho, Joaquim Veríssimo Calçada
Direção: Susana Nobre
País: Portugal

Foto: Susana Nobre

Exibido no Festival de Berlim, no IndieLisboa e no Festival Visions du Réel, No Táxi do Jack é um filme reflexivo que segue Joaquim, um homem de 63 anos que, perto da aposentadoria, precisa preencher requisitos exigidos pelo governo para conseguir o seguro-desemprego — um dos requisitos obriga o trabalhador a comprovar que está ativamente buscando emprego. Sua vida se resume a visitar inúmeras empresas para pedir atestados que provem sua procura por trabalho, mesmo que ele não tenha planos para voltar ao mercado de trabalho.

À deriva em uma pequena cidade de Portugal, Joaquim relembra os 20 anos que trabalhou como taxista em Nova York e compartilha comentários sobre a cidade, os diferentes clientes, a vida profissional de um imigrante ilegal, o táxi e até mesmo os pagamentos que recebia. Existe uma óbvia melancolia nas reflexões de Joaquim, um sentimento comum vindo de um homem que escapou da turbulência política e das dificuldades econômicas no país de origem para viver experiências emocionantes na juventude.

Criando um documentário híbrido, No Táxi de Jack coloca Joaquim para reproduzir sua própria história. A diretora Susana Nobre reconstitui esse período da vida do protagonista como um conto urbano que intencionalmente lembra o cinema nova-iorquino da década de 1970. Entretanto, a impressão é que Nobre não soube escolher qual seria a melhor estética e caminho narrativo para contar a história do protagonista, distorcendo o que poderia ser uma trama simples, mas bastante humana.

A narração vagarosa — excessivamente dramatizada — e a infrutífera busca do protagonista tornam o filme tedioso e desinteressante, mesmo que Joaquim seja uma pessoa cativante e o companheiro ideal para  compartilhar uma conversa em um banco de praça. Às vezes, o melhor caminho está em fazer o simples.